Meus olhos pesam uma tonelada. Pequenos já são, nânicos e esticados, tipo japonês. Do tipo importado, do tipo que agrada quem gosta de comida japonesa, do tipo que sonha com monstros destruindo cidades, enfeitadas com nêon. Sonhando acordado com os carros que ainda não sabem voar. Vivendo a realidade de um sonho ainda não terminado. Realidade inexata, toda essa exatidão, toda essa simplicidade. Só preciso de mais alguns minutos de sono, mesmo que eu me atrase mais uma vez, mesmo que o dia acabe enquanto eu ainda durmo. Não me importo com a regra dos horários, não uso relógio, acho muito chato controlar o meu dia com alguns ponteiros independentes, não giram conforme o gosto daquele que o usa e sim, funcionam por conta própria, chato demais para se pensar agora cedo.
Vou te tirar para dançar assim que eu conseguir abrir o meu olho da direita. Não peça para eu andar mais rápido, ou passar aquele perfume que me deixa com alergia. Deixa eu estar de pijama quando escurecer. Vou fazer dança como vento e vou cantar sobre a preguiça. Vou dormir a noite inteira e te deixar com raiva. Você louca para dançar e viver a juventude de uma sexta-feira cheirosa. Não, não mesmo! Só quero mais um afago apaixonado do meu travesseiro e sentir não mais o calor do seu corpo sobre o meu. Hoje sou paixão pelo cobertor, mesmo que seja na contra mão de qualquer amor, hoje eu não te amo mais nada, não te amo mais nada mesmo, zero porcento de cada porcentagem de descontos, acumulados em cupons que eu sempre junto quando faço compras no mesmo supermercado. Sou viciado no clichê e adoro juntar cupons. Mas não fazemos compras tem mais de um mês, tudo bem sobreviver com alguns lanches durante a tarde, acho que estou engordando, mas estou levando como uma engorda preparatória para o inverno que está chegando. Quando o sol voltar quentinho, eu prometo correr no final das tarde, dormir menos durante o horário em que normalmente as pessoas vivem suas vidas. Não sei se são medíocres essas, estar com sono é pairar sobre o natural e o sonho. Acho que é tudo real e meus olhos pesam demais.
Assistir a tarde passar com os olhos fechados, vou deixar a porta do meu quarto só encostada, ainda não deixei de ser idiota e ainda fico esperando o telefone tocar. Toda vez que sinto vibrar meu celular, rezo por dois segundos e espero ver o seu nome ali, me chamando com sua voz delicada, riso ao fundo, gemidos de alegria que eu sinto muita falta. Tanta aventura, tanto sonho bom, tanta alegria, tantas coisas sobre você que eu ainda não consegui descobrir. Até vou esquecer o seu nome, só para fazer graça e perguntar de novo qual a poesia que escolheram para denominar você. Rosa minha, flor minha, maravilha minha, tudo que seria de posse, mas que fugiu, sem eu tentar apertar entre os meus dedos, você virou as costas e virou história. Virou nome perdido, sem registros ou documentos marcados em minha agenda. Não consegui guardar perfeitamente o seu rosto em minha mente, mesmo depois de ter tentado decorar cada cena que ao teu lado assisti. Mesmo eu tentando de várias formas. Eu nessa minha mania de querer te esquecer, só acabo conseguindo me lembrar cada vez mais. Não me machuca mais pensar, não me tira o sono e não me faz querer não pensar em mais nada. Mas virou borrão branco dentro da minha cabeça, toda sua beleza inconfundível, tudo aquilo que é de se admirar por uma vida inteira. Seus olhos, sorrisos e olhares perdidos, seja para mim, seja dentro dos meus olhos,ou até mesmo perdida em algum filme que passava na TV, não sei. Juro não saber, querer saber, não sei se quero também.
Não quero dançar hoje, sei que é sexta, sei que amanhã posso acordar tarde. Hoje eu quero dormir o dia todo e não me importar, quero ser da minha cama e de mais ninguem. Hoje eu não quero dançar, não quero me cansar, não quero ficar suado,não quero me perder. Quero me encontrar, me achar no espelho só amanhã de manhã, com o rosto amassado e com a voz rouca. Quero acordar em um novo dia, menos cinza talvez. Queria querer menos as coisas na vida, queria pensar menos no que eu tanto quero e se realmente necessito de tudo aquilo que desejo tanto nesse jogo todo de querer demais. Não é só mais um samba, é dançante eu sei muito bem, foi eu quem o fez. É de preguiça e mais nada, não vou repetir tudo aquilo que eu penso a respeito do assunto e muito menos vou te fazer decorar essas minhas palavras. Sempre repito, lógico que dentro de toda minha forma de expressar aquilo que sinto, ou inventando uma nova forma de ser. Não sei o que dizer hoje e mesmo que eu apague tudo, vou acabar escrevendo do mesmo jeito em todas as novas mil tentativas.
Está vazio e não tem nenhum nome estampado na porta de entrada. Ninguem viu quem foi o último a se aventurar. Estavam todos muito cansados para tentar interpretar de uma forma mais doce todos esses últimos fatos. Fiz como um adolescente e me desenhei sem maturidade alguma. Gosto de ser amador, gosto de ser insignificante e ninguem me viu entrando aqui hoje. Sei não fazer barulho, sei ser discreto e não deixo ninguem se apaixonar. Faço de propósito e falo para todo mundo que eu não sei realmente dançar. Jogo dois para um lado e dois para o outro e mesmo assim não faço valsa em toda essa falsidade de nossos abraços. Simulados demais, controlados demais. Cansei de fazer de conta que eu ainda gosto de tudo isso. Meus dentes estão amarelados demais e hoje eles vão ficar escondidos de vocês todos. Deus não vai me ver, vai esquecer de mim hoje e não vai me telefonar. Hoje não me chamo mais Leonardo e não sou mais você também. Não sou ninguem mesmo e por uma sexta-feira, não vou ter vergonha de assumir nada. Li todo o contrato antes de me mudar para cá, assinei somente aquilo que realmente parecia ser cordial demais. Mas o exato momento não é considerado o melhor para negociar mentalmente os fatos que necessitam serem apreciados agora.
Terminei todas as provas e não fiquei de recuperação, me esforcei e decorei todas as fórmulas chatas de física. Até fingi que gosto de algumas coisas indiretas do caso reto, ou talvez algumas com defeitos que nasceram passivas e sem objeto direto.Não sei para que serve e se realmente serve. Não me visto mais como antigamente e não sei para que eu preciso realmente juntar bolinhas com bolinhas e adivinhar algo parecido com "mol". Teorias não me agradam, gosto de fazer as minhas. Mesmo que lotado de conclusões banais e sem sentidos aos olhos preocupados com o bolso.
Não vou dançar com você e não vou me preocupar comigo mesmo. É para dormir e esquecer da fome, como se esquece uma paixão depois da dor. Hoje só vou sentir o calor da espuma que me abraça e vou esquecer novamente meu próprio nome. Perdido entre tiros e loucuras criadas durante a madrugada. Nessa minha própria busca pelo dia seguinte, vou seguir sozinho e acordar babado. Não quero mais fofoca e vou me divertir com as novidades do ano passado. Cansei de viver o presente e recordar nem sempre é andar no sentido contrário.
só mais cinco minutos
mais um pouco para mim
deixo de lado você...
só mais cinco minutos
Leonardo