11 de jul. de 2010

#PAUSEANDO - Cura

Logo ali e foram dois tiros que me fizeram abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Assustado, logo deixei cair no chão tudo que estava em meu colo. Foi de supetão, vestindo com rapidez meus dois sapatos, cobri meus pés, ergui meu tronco, em prontidão, já estava posto para luta. Sem sonhar nessa última noite de sono. Deixei de sonhar mês passado quando assisti a última derrota. Sofri tanto que preferi dormir mais rápido para não lembrar mais nada depois. Quero esquecer tudo quando acordar. Sem detalhes, sem formações e ninguém para responsabilizar a minha falta de responsabilidade. Até acho que dormir foi demais, mas a quantidade que incomoda muito. Meu corpo não cresceu e os muros ainda estão pela metade. Faltou cimento para construir o quarto do fundo e passei o último ano usando só uma calça. Não é modéstia, não é simplicidade. É a falta do que fazer e a falta me fez faltar até água para gelar. Fiquei assustado e apalpei o corredor até a porta do banheiro. Lavei meus olhos e percebi melhor. Senti, olhei e conversei sozinho. Acorrentado por dias, foi bom levantar, foi bom ver que no presente ainda me cabe um pouco de vida para viver. Se respirar é viver, cumpro com excelência o objetivo que me foi pré-disposto.

O odor identificava que fazia dias que água passava longe. Sem higiene, sem luz, sem amigos e mais ninguém que fosse honesto o bastante para me entreter, me alegrar, apaixonar. Roupas apertadas incomodando o dia todo. Fazendo de conta, faço muito bem de conta. Sorrio e pulo, sal demais agrada quando a fome é muita. Quando a fome sobe ao limite do aceitável. Aceitar é simples! Coloque até o centro. Encoste em sua língua e sinta. Sentir é básico. Uma menina no corredor de trás veio me dizer durante a manhã que sabe realmente das coisas, mas nunca foi até a esquina buscar pão sozinha. Nunca foi até ali se encontrar consigo mesmo, para tirar um dia e conversar, aceitar e conhecer a curiosidade alheia. Conhecer aquilo que teme. Continua tendo medo sem ao menos se molhar. Chorei de medo durante quinze dias sem parar. Era tiro para todos os lados o tempo inteiro, impossível não temer aquela que estava próxima dos corpos que desabavam. Casas e ruínas, secas e discórdia. Diz saber, mas só sabe da cor do cabelo alheio e qual roupa cairá bem. Diz saber e continua presa, continua prendendo e parece que não quer se soltar de jeito algum. O restrito já é o suficiente. Mas para ganhar um papel proveitoso nessa revolução, doarei minha boa vontade e no final nomearei essa fase com suas iniciais, de bom grado, felizes gritarão em um feriado prolongado, dizendo que foi você que deu um dia de folga para todos esses folgados.

Cansei daqui, cansei dali, cansei desse espaço sem espaço para mim. Cansei da honestidade comprada, cansei da hospitalidade forçada. Do abraço que não é abraço e do sono que não relaxa. Dos dias parecidos e cansativos demais para se orgulhar. Cansei de não ter com que me orgulhar. Cansei de cansar por motivos toscos. Cansei de reclamar da fila do banco e achar que isso que é realmente sofrimento. Cansei de ver as pessoas se cansando sem ao menos suar. Sem aos menos se esforçar em pensamentos. Cansei das pessoas que não pensam. Cansei das que só justificam, mas não movem palhas para construir moradia. Cansei daqueles que gostam de estar presos dentro de banalidades. São só banalidades. Sua vida vai além da reclamação de amor partido. De menino que se foi e não quis levar você consigo. Cansei de ver gente reclamando. Cansei de ser reclamante demais. Cantante só quando posso, para não chorar, para não se lembrar da mãe que me faz falta. Cansei.

Idéias repetidas são idéias repetidas. Sem novidades prefiro estacionar e te ver passar só aos domingos para entregar os jornais. Resultados de futebol, resultados da loteria, resultados dos exames. Não está grávida, pois então não teremos nove meses de novidades. Parados, expostos ao medíocre mesmo do mesmo que vai acontecer. Expostos a poluição que não limpamos. Expostos ao sol sem se proteger.

Como um cão que só late quando está preso em sua coleira. Tenta fugir, por favor, tenta fugir e arranca o braço daquele filho de uma puta. Daquele desgraçado! Tenta fugir! Se solta! Arranca essa coleira e foge. Arranca aquele saco caído que não serve para mais nada. Massacra, deixa o sangue jogado e continua fugindo. Não se importe, cubro por aqui e te defendo.

Não agüento mais esse espaço que não é para mim. Não agüento mais essa coleira que me prende e não me deixa sair. Não me deixa correr, não me deixa fazer, me prende...


Como se não fosse possível soltar minhas mãos





L.

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