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3 de jun. de 2013

O último sorriso da Terra do Nunca.

Para ouvir lendo:




Multidão de garotos gastaram dias construindo balões e espalhando estrelas cadentes por todo céu e delimitações da Terra do Nunca, pois houveram dias escuros e preocupantes e seu principal menino perdido encontrava-se ausente desde o último sorriso do despertar e mais do que contas atrasadas, isso era mesmo algo com que se preocupar.

Foram dias que andou abatido, cabisbaixo, soando poucas palavras e preferindo estar só, evitando contatos, diálogos e brincadeiras, como de costume nos dias de sol. Espelhos refletiam a causa, mas da sua boca não se via expressar nenhuma lógica matemática ou motivo previdente. Seus olhos abrigavam medo do mundo e penso ter sido isso que lhe impedia de abrir o coração e contar o que se passava, as vezes é duro dizer, explicar, só faz doer mais. Quem vê de fora, o filme parece muito mais simples do que para o roteirista que tenta encaixar palavras certas, argumentos, movimentos e continuidade. Foram deixando garoto calado, até perceber que no meio do feriado o céu deixou de brilhar e com isso, ficou impossível lhe encontrar.

O balões iam se espalhando por todos os pontos cardeais, via-se de longe imensidão iluminando a Terra do Nunca e a tristeza do garoto começou a minar o peito dos seus colegas, companheiros e amigos, pois desentendidos, sem questionar, acabaram-se afetados e trocando olhares de poucas palavras indagavam-se. O último sumiço de Peter teria sido causado por uma briga, essa que devo pular sem citar, para pouco relembrar erros do passado, mas garotos realmente erram muito. Somos seres apressados e ansiosos, logo ficamos confusos e espalhamos de forma errada as necessidades em suas seqüências. Eu sei, está difícil de entender, mas nós garotos as vezes maltratamos sem perceber, é a coisa mais tonta do mundo, porque gostamos, amamos e como baralho desorganizado, ficamos atrapalhados e cometemos mais erros ainda e o pior, o pior mesmo, é quando se percebe que é bem tarde para se reparar o que fez. Sinto nós apertados fazendo-se dentro da minha garganta a cada vez que enumero meus erros.

Exaustos da busca, foram acomodar suas colunas em colchões confortáveis, mas a pequena fada, aquela que vocês já conhecem, resolveu sair do casco. Essa que por hora teria só descansado, despreocupada aparentemente, saiu e foi tomar nota do que acontecera e que causara tantos balões no céu. Arrancou com velocidade pelo ar e chegou até o mais próximo Garoto Perdido e com sua doce voz irritante indagou-lhe:

- Que carnaval, que festival, que banal, que estabilização!

Ela demorava sempre para encontrar as palavras desejadas, dava voltas, mas encontrava-se próxima da última curva.

- Por que raios tantos balões, emoções e sentimentos espalhados pelo espaço? Nem é dia de festa e estão todos a voar feito loucos, pirados, escancarados por todos os lados!

Quanto mais falava, mais aproximava-se do Garoto, parecia mais estar a brigar do que questionar e assustado, logo veio com a resposta...

- Senhora Sino, como não sabe? não sente pelo ar a falta de ar mais leve que antes aqui rondava?

- Acho que aqui, só eu posso rodopiar com pensamentos e me enrolar antes de explicar para chegar no finalmente, por favor, seja concreto, reto e objetivo!

- Senhora Fada, Peter está sumido desde antes do último sorriso, deixou de responder mensagens, sinais e esclarecimentos, desligou as luzes e deixou-nos todos preocupados.

- Esse escarcéu todo é por causa do garoto mimado? Ficou chateado foi pensar e logo se armou esse circo? Já vi motivos maiores passarem batidos e agora vem dizendo que é isso?

- Senhora Sino, por favor repare na falta de estrelas do céu e como o ar tem se distanciado, temos medo do sorriso se perder e logo se encontrar com quem não deveria, só isso!

- Ah! Vá caçar o que fazer!

Estripulias e giros pelo ar marcaram a partida da brilhante fada, que seguiu torcendo o nariz, despreocupada com o objetivo dos balões. Sobrevoou incomodada, analisando a movimentação do começo da noite e aplicou fuga em caminho oposto. Vendo de fora parecia estar fugindo da situação, motivos deve ter, mas esse deixo para responder depois quando souber enfileirar palavras com mais precisão, fadas são complicadas demais.

Poucos sabiam, mas ambos teriam se distanciado e nem foi por briga, foi por tontura mesmo. Coisa de gente tonta que sabe pouco sobre a vida, que desliza sem motivo e depois tem orgulho de voltar atrás, de pedir perdão e de retomar de novos capítulos. Se brigas compensassem, ganharíamos dinheiro a cada grito, mas fora experiência e acumulo de tropeços, as rusgas só trazem novas rugas e o resto é balela da oposição, que quer ver corações tristes e separados. Acumularia melhor meu tempo passado se desse, pois olhar para trás e só poder fazer somas abstratas é pior que pesadelo que te faz acordar cansado. Esses dois eram craques em abandonar sorrisos para se aventurar e as luzes se apagavam cada vez mais e nem mesmo todos os balões da Terra do Nunca seriam capazes de possibilitar enxergar os sentimentos como eles realmente são.

E os dias foram passando, nem todos os balões continuaram com força e muitos abandonaram a busca. As luzes diminuíram e o cansaço era evidente, os garotos estavam esquecendo como era o sorriso, pois última alegria já fazia desaniversário descontente, que era para ser diferente, mas sem Peter, as coisas pareciam pela metade e a Fada dava o ar da graça nos crepúsculos, buscava gotas de orvalho, mirava os olhos nos balões, sussurrava e se resguardava, citando a quem percebia, que essa voltaria no dia seguinte, mais uma vez.

Você entende de tristeza? Como explicaria em desenho simples e de cores primárias seus sentimentos mais profundos e a falta que faz a luz em nossos dias? Esses que passam tão depressa, ontem vira antes de ontem com tanta voracidade que o medo só aumenta e de tal forma, foi assim que todos sentiram-se, depois que o logo ali virou passado e já acostumados, tocaram sem sorrisos a rotina, seus cursos, caminhos e afazeres.

E a fada apareceu novamente, regrada ao mesmo compromisso de horário pessoal dos dias anteriores e saiu para o mundo, mas dessa vez o choque foi diferente, pois já não haviam mais balões no céu e o corre-corre teria cessado, de ficar assustado, deixado de lado o tal Peter, que já fora Pan no último sorriso que compareceu e preencheu de azul imensidão de solidão inexistente da ótima paixão por estar vivo. De tocar o coração de qualquer ser, mesmo que esse seja o do nariz torcido, da voz estridente, que também foi capaz de achar falta de alegria naquele ar que estava carregado de tristeza, de dar moleza, de vontade de ficar embaixo das cobertas reclamando.

Com minúsculos nós imperceptíveis entrelaçados na garganta a Fada resolveu voar pela Terra do Nunca e isso te fazia pensar. Andar na rua a noite, ouvindo musica, faz relembrar muitas coisas e se for esperto, colocamos a frente os pensamentos bons, mas quando  o dia está cinza, esse faz dor na beirinha do coração. Ela percebia a falta de animo e que as cores estavam ficando fracas ao ponto de estarem desbotadas e questionava-se quantos sorrisos seriam necessários para criar coragem nesse povo.

Algumas pessoas se conhecem muito, mesmo estando distante, continuam a conhecer da mesma forma. A troca de olhar, de palavras alteradas, conviver é desvendar mistérios que resumem em movimentos que nem precisam de nomes e a fada sabia do sumiço e compreendia o motivo de tudo isso, mas de si escondia, porque era muito mais fácil assim, mas acho que a tristeza afetou-lhe e seus vôos pareciam abatidos e seu brilho estava pela metade.

Por instinto caminhou até o velho deck a beira dos montes e cachoeiras, onde havia enorme queda d’água que costumava passar por ali junto com seu grande amigo Peter Pan. Ali eles gritavam, contavam estrelas e decidiam como mudariam o mundo quando fosse a hora certa. Lá, sentou-se e encarou com tristeza aquela noite sem estrelas que começava a brotar. Lembrou de tantos sorrisos, que sem querer colocava riso no canto da boca e gotículas lacrimais brilhavam no canto do seu olho esquerdo, mas olhou para os lados, limpou-se. Saudade aperta tudo por dentro, mais que tênis novo ou roupa abaixo da numeração e já repararam que parece não ter concerto?

Sinto saudade da escola, da minha mãe e dos meus amigos que esqueceram o meu nome. Sinto saudade das bobagens e das férias de verão, dos dias na piscina, das rugas na pele de tanto aproveitar. Sinto saudade de descascar a pele depois de tomar sol sem protetor. Sinto saudade de sentir vergonha de dizer que estou morrendo de vergonha. Sinto tanta saudade, que deveriam inventar outra palavra para comprimir novos sentimentos derivados que conheci nessa última temporada. Tem gente como a fada que sente saudade e sabe guardar, ou transformar em passatempo, saídas esporádicas e amizades que logo se vão, só para os dias passarem, mas Peter, Peter era um menino tonto.

Sentada ali, pensava de chegar longe, de nem perceber mais onde estava, mas o silêncio foi quebrado com susto de arrepiar os pêlos do braço.

- Ei menina tonta, estou morrendo de saudade.

- tonto é você! Tonto é você mil vezes mais.

- Posso só ficar calado e te admirar sentada ai e me perder pensando em tudo que já passamos juntos por aqui?

- Cala boca, seu menino tonto!

Sorriso simultâneo colaborado por relógios que coincidiram forças e resolveram acertar-se logo ali, aplicando estrelas que surgiram em um piscar de olhos iluminando toda Terra do Nunca, fazendo o último sorriso se tornar o penúltimo, perdendo a vez por diversos que estariam por vir nas próximas horas.

- Podemos acertar as linhas e recomeçar do jeito certo?

- Você não sabe de nada mesmo, acha que sabe, mas não sabe de nada.

As idas precisam de motivos, mas as voltas, é melhor se aproveitar colorindo com balões e sorrisos junto das estrelas do céu. E mais nada.



Leo Fonseca