11 de jul. de 2010

#PAUSEANDO - Cura

Logo ali e foram dois tiros que me fizeram abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Assustado, logo deixei cair no chão tudo que estava em meu colo. Foi de supetão, vestindo com rapidez meus dois sapatos, cobri meus pés, ergui meu tronco, em prontidão, já estava posto para luta. Sem sonhar nessa última noite de sono. Deixei de sonhar mês passado quando assisti a última derrota. Sofri tanto que preferi dormir mais rápido para não lembrar mais nada depois. Quero esquecer tudo quando acordar. Sem detalhes, sem formações e ninguém para responsabilizar a minha falta de responsabilidade. Até acho que dormir foi demais, mas a quantidade que incomoda muito. Meu corpo não cresceu e os muros ainda estão pela metade. Faltou cimento para construir o quarto do fundo e passei o último ano usando só uma calça. Não é modéstia, não é simplicidade. É a falta do que fazer e a falta me fez faltar até água para gelar. Fiquei assustado e apalpei o corredor até a porta do banheiro. Lavei meus olhos e percebi melhor. Senti, olhei e conversei sozinho. Acorrentado por dias, foi bom levantar, foi bom ver que no presente ainda me cabe um pouco de vida para viver. Se respirar é viver, cumpro com excelência o objetivo que me foi pré-disposto.

O odor identificava que fazia dias que água passava longe. Sem higiene, sem luz, sem amigos e mais ninguém que fosse honesto o bastante para me entreter, me alegrar, apaixonar. Roupas apertadas incomodando o dia todo. Fazendo de conta, faço muito bem de conta. Sorrio e pulo, sal demais agrada quando a fome é muita. Quando a fome sobe ao limite do aceitável. Aceitar é simples! Coloque até o centro. Encoste em sua língua e sinta. Sentir é básico. Uma menina no corredor de trás veio me dizer durante a manhã que sabe realmente das coisas, mas nunca foi até a esquina buscar pão sozinha. Nunca foi até ali se encontrar consigo mesmo, para tirar um dia e conversar, aceitar e conhecer a curiosidade alheia. Conhecer aquilo que teme. Continua tendo medo sem ao menos se molhar. Chorei de medo durante quinze dias sem parar. Era tiro para todos os lados o tempo inteiro, impossível não temer aquela que estava próxima dos corpos que desabavam. Casas e ruínas, secas e discórdia. Diz saber, mas só sabe da cor do cabelo alheio e qual roupa cairá bem. Diz saber e continua presa, continua prendendo e parece que não quer se soltar de jeito algum. O restrito já é o suficiente. Mas para ganhar um papel proveitoso nessa revolução, doarei minha boa vontade e no final nomearei essa fase com suas iniciais, de bom grado, felizes gritarão em um feriado prolongado, dizendo que foi você que deu um dia de folga para todos esses folgados.

Cansei daqui, cansei dali, cansei desse espaço sem espaço para mim. Cansei da honestidade comprada, cansei da hospitalidade forçada. Do abraço que não é abraço e do sono que não relaxa. Dos dias parecidos e cansativos demais para se orgulhar. Cansei de não ter com que me orgulhar. Cansei de cansar por motivos toscos. Cansei de reclamar da fila do banco e achar que isso que é realmente sofrimento. Cansei de ver as pessoas se cansando sem ao menos suar. Sem aos menos se esforçar em pensamentos. Cansei das pessoas que não pensam. Cansei das que só justificam, mas não movem palhas para construir moradia. Cansei daqueles que gostam de estar presos dentro de banalidades. São só banalidades. Sua vida vai além da reclamação de amor partido. De menino que se foi e não quis levar você consigo. Cansei de ver gente reclamando. Cansei de ser reclamante demais. Cantante só quando posso, para não chorar, para não se lembrar da mãe que me faz falta. Cansei.

Idéias repetidas são idéias repetidas. Sem novidades prefiro estacionar e te ver passar só aos domingos para entregar os jornais. Resultados de futebol, resultados da loteria, resultados dos exames. Não está grávida, pois então não teremos nove meses de novidades. Parados, expostos ao medíocre mesmo do mesmo que vai acontecer. Expostos a poluição que não limpamos. Expostos ao sol sem se proteger.

Como um cão que só late quando está preso em sua coleira. Tenta fugir, por favor, tenta fugir e arranca o braço daquele filho de uma puta. Daquele desgraçado! Tenta fugir! Se solta! Arranca essa coleira e foge. Arranca aquele saco caído que não serve para mais nada. Massacra, deixa o sangue jogado e continua fugindo. Não se importe, cubro por aqui e te defendo.

Não agüento mais esse espaço que não é para mim. Não agüento mais essa coleira que me prende e não me deixa sair. Não me deixa correr, não me deixa fazer, me prende...


Como se não fosse possível soltar minhas mãos





L.

7 de jul. de 2010

#PAUSADO - Carta de Abstinência daquela que não sabe afirmar

Foi inevitável não ligar o nome a pessoa. Tocou tua música. Era realmente sua música. Chamava de nossa até um tempo atrás. Mas ficou só para você. Deixei minha vida seguir e conheci outras canções no decorrer da caminhada. Passei por cidades e tive amores. Tive pessoas e mesmo assim é para sempre essa música. Sabe quando é complicado explicar? Até tento explicar o filme que vejo em minha cabeça, mas com você, prefiro só ouvir a música mais uma vez. Lembrar do seu cabelo. Do seu cheiro. Por noites senti seu cheiro em outros pescoços, mas é o teu cheiro. Sinto passar em um cabelo na fila do banheiro. É o seu cheiro. Decorei. Assim como sei tua voz, o jeito que você respira enquanto dorme. Desculpa se disse que não era especial. Só quis parecer duro, rude, não sei! É nessas horas que a gente acaba soltando aquilo que nem repara, mas acha que é poder mágico durante briga e solta. Não foi por querer. Adoro o jeito que você olha para as coisas e o apelido que deu para tudo que faz. Seu jeito, realmente, é o seu jeito e o de mais ninguém. Em uma comparação tosca. Seria como as predefinições dos lanches dos Fast-Foods do shopping. Padrão. Daquele jeito e não muda. E penso! Mudar para que? Qual a função real da mudança? Ligação e comprometimento? Como que funciona e por que funciona? Na real... Não sei. Mas sempre adorei o seu jeito e se disse para mudar, não se encane, estou mais sóbrio agora. O amor às vezes me deixa um pouco bêbado. Destilados são assim e o amor é como uma Vodka russa. Pesada. Esquenta até o ego! Entrelaça as pernas, fica bambo, cai para o lado e pronto! Você não estava mais lá para cuidar de mim e vomitei por todo corredor. Foi feia a coisa!

Falando em Fast-Foods! Sempre adorei o seu gosto, a sua comida e o seu tempero. Picante, doce, variante. Delicado, suave e devastador. Separada por cores, frias e quentes e pelos dias mais cinzas anda pelo preto, só para afastar o azar com uma cara bem amarrada. Mas tudo bem, amarga durante um mês, ou dois. Voltava quando passava e tudo ficava mais gostoso ainda. Sobremesa, morango e torta de limão. Azedo, doce e um pouco de tudo para não enjoar nunca, mas deu dor de estomago. Relógio sempre trás uma dor desnecessária. O administrador daqui disse para ligar depois do expediente que ele explica um pouco melhor esse funcionamento chato, fico impaciente só de lembrar. Trabalhava durante a semana, passava com quem não queria passar. Meus chefes eram tão chatos! Desejava você de segunda a sexta, mas só podia no sábado a tarde, depois do curso de inglês. Não dava tempo e ainda assim, você não entendia o pouco tempo que eu tinha. Tudo bem! Já foi.

Quando sonhar comigo, pensa em mim quatro vezes. Da primeira para segunda, talvez eu nem sinta muita coisa, mas com certeza quando estiver próxima do quarto pensamento, uma luz pisca. Eu já vou saber de onde veio. Não te falo para passar aqui depois, no final de semana, ou antes, porque sei que não vai poder. Tem compromisso, faz aula, tem família, até achou um namorado. O cara me parece bacana, temos amigos em comum. Continuo reclamando e achando o amor um saco, mas encontrei uma loja sensacional. Parcela em mil vezes o Amor e transforma em algo tão banal que só esse mês eu comprei mais de vinte e levei comigo para balada! Doze beijos roubados e não descobri um nome. Pula essa parte, vai para o nono artigo!

Aquele que fala que nunca te esqueci e admiro sem olhar. Sentindo sua existência. Sentindo sua falta e sabendo que é a melhor pessoa do mundo. Reclamar é para quem não gosta de ganhar abraço. Não se perde nem se ganha! Foi tudo inventado! Ninguém sabe de nada, continuam achando, mas no básico todo mundo ainda se ferra. Tropeça, agride. Desencana!

Para cada dia, devolveria três no calendário só para repetir o que já foi
Ligava o Loop e ouvia mil vezes a mesma música
Usava mesma roupa

Ia parecer um louco ali
Circulando, voltando, indo
Ia aparecer um louco ali

Não tem problema


E se tiver


Eu resolvo





Libra D.

4 de jul. de 2010

#PAUSA - Palitando os dentes

Olha para cima que é luz do dia
Cuidado com o taco debaixo, pode tropeçar
Antes de começar, aviste sempre o necessário
Se for sábio saberá...

...que tanto faz se passar

Se voltar, aviste com mais calma um pouco
Nega um pouco, descansa bem o almoço
Tranqüiliza essa cabeça que logo começa

E tanto faz se passar

Aproveita no início e segue
Esquerda, direita, esquerda e vira
Nunca ninguém vai desconfiar
Tem até um troféu para o primeiro que arriscar

Na vida não tem prêmio ou vencedor
O único sempre em evidência é o pecador
Leva consigo maldade
E tenho certeza que não é vantagem

Faz da Segunda o melhor dia
Depois comemora a Copa

...

E com seu jornal debaixo do braço
Espera sua vez, mas não deixa o tempo passar
Corre e sempre tenta aproveitar


Não me segue, porque sempre faço tudo errado!


Mas quem disse que é ruim?




Leo Fonseca

30 de jun. de 2010

#1968 - Veículo de transição

Duas sombras adentraram como vilões a janela do quarto. Esbarraram em tudo. Um abajur foi ao chão sem se preocupar com ruídos. Barulho diferente para cada passo dado. Barulho para cada esbarrão, para cada objeto que ficava pelo caminho. Demarcando com migalhas o futuro local do crime. Percorrendo todos os cômodos procurando por alguém que ainda respirasse! Alguém que ainda criticasse, alguém pronto para falar mal da escolha Militar. Bate essa mão no peito e canta o hino sem errar. Ame sua bandeira! Apaga tudo de errado que acontece e abstrai! Joga de canto e faz tudo. Nasceu burro e vai morrer pior ainda.

Foram pelo corredor até o fim. Passaram por duas portas que estavam abertas. Foram direto e não encontraram ninguém. Os meninos saíram para comprar algo para jantar e as meninas se espalharam por outros cantos. Em punhos armas cromadas. Uma águia brilhante e treze tiros prontos. Cuspidos tirariam a vida de qualquer um.

Ídolo! Presidente da República! Qualquer porra!

Qualquer um cairia no chão e só acordaria, caso ainda tivesse chance de acordar! Seja lá onde for. Se não, cairia dolorido demais para falar mais alguma palavra e com mais um tiro morreria.

No final do corredor uma porta semi-aberta! Uma luz e movimentos! Um idiota! Com tanto barulho eu já teria mudado de canal. Passava a página! Mas não!

- Comunista de Merda! Comunista de Merda!

- Mato agora? Deixo pra depois?!

Depois da segunda interrogação o menino já andava como um caranguejo pelo chão. Caído, indo de um lado para o outro. Ridículo! Com medo! Respirando como um cão...
...

Um disparo!
...

- Não gasta bala assim, seu idiota!

- Atiro no teto quantas vezes quiser... Pega esse maricas aí!

Na hora que o primeiro disparo foi parar no teto duas coisas aconteceram!

1 - O maricas acabara de marcar suas roupas íntimas!

2 – Ele pensou... “Estou vivo?”

...

Sim, sobreviveu!

Idiota!

- Essa eu não vou errar!

Com muita violência no seu olhar o nobre rapaz mirou com precisão seu alvo dessa vez e esse não era o teto! Sairia sangue dessa vez, mas nem pensou muito na sujeira que faria.

Puff!

...

- Eric, você está sonhando mais uma vez? Não consegue dormir e ficar quietinho nunca?! Meu Deus do Céu Cara!

Eric levanta suando frio! Bufando! Cansado! Mas era, realmente, somente, mais um sonho.

- São esses malditos remédios que estou tomando para essa maldita gripe! Você sabe disso!

- Tudo bem! Descanse então! Se cobre direito!

Não se cuidou e ficou doente! Vacilou! Tomou friagem, esqueceu o casaco e deixou vento gelado bater no peito. Não cobriu as orelhas antes de dormir. Mês de julho começando. Mês de frio. Festas Juninas só ano que vem. Quentão só ano que vem. Junho foi-se e só deixou o nariz escorrendo para quem se resfriou. Toma um chá quente e coloca um agasalho. Fica de molho por um dia. Antiinflamatórios. Antibióticos. Anti-bactericidas? Não sei! Mas caso necessário, durma de meia!

Fazia frio!

Estavam alguns dias fora de casa já. No Rio de Janeiro e em um clima estranho, mas já haviam articulado uma forma prática de voltar para perto de casa antes que estourasse uma bomba. Era perigoso, mas era necessário.

Depois do tumulto causado dia vinte seis, seus rostos já não brilhavam como antes. Pareciam reluzir entre outros jovens. Parecia funcionário andando de crachá pela rua. A Dona de Casa. O Chefe de Família. O Filho. A Filha. Safada. O Cansado. O Vagabundo e o Menino que Queria Mudar o Mundo.

Mudar o mundo!

Colocar o planeta para girar ao contrário!

Faz a noite e dorme de manhã. Faz de manhã e dorme depois do almoço, sem ninguém para reclamar da sua preguiça!

- Vamos! Já estamos atrasados!

- Foi você se maquiando! Foi você que atrasou todo processo! Eu esperei mais de meia hora! Lerda!

Se resumir em pensamentos que a zona Central de uma cidade deve ser a mais fácil de chegar, por estar Centralizada. Ligada a Zona Norte. Oeste. Leste e Sul! Qualquer zona chega ao Dentro! Todo centro liga para toda zona. Menos para a verdadeira Zona!

Bagunçada!

- Onde fica mesmo a rodoviária Margot?

- Região portuária! Centro do Rio de Janeiro, por quê?!

- Estamos longe ainda?

- Vamos descer aqui motorista!

...

E o taxi parou!

...

Antes de colocar o pé direito para fora do automóvel, Margot já percebera que dois homens fardados vinham pelo lado esquerdo, fazendo a esquina. Abaixou teu chapéu, vestiu uns óculos escuros e saiu do carro. Parecia Gringa. De vestido! Eric conduziu cada movimento no mesmo compasso que sua amiga. Seguiram invisíveis até adentrar a rodoviária.

Pareciam em um campo de guerra! Cercados de mongóis e mouros! Espalhados por todos os cantos. Rifles e escotilhas. Tochas e cavalos brancos. Sem armaduras os mais fortes e entocados os mais frágeis. Alguns de bigode. Barbas serradas.

Cinco metros se tornaram quarenta quilômetros!

Quando estamos em minoria, a maioria sempre dá as caras...

- Estão com seus documentos?!

Pior do que pedir para mãe assinar Prova de Matemática quando a nota está vermelha! Até mesmo pior do que o sentimento que tem o garoto, quando seus amigos contam para sala inteira qual a menina que ele está apaixonado! Nessa hora o rosto fica vermelho! Nessa hora o coração bate muito mais forte!

- Não senhor! Não estamos com os nossos documentos!

- Como não?!

Mentira! Sempre a primeira e mais burra forma de resolver uma situação quando se está com muito medo. Aplicar a verdade é simples, mas em determinados momentos, vale a pena arriscar. É tudo ou nada! Se joga de cara e vê no que dá! Pode dar vacilo, pode dar solução. Só depois da retórica que se conclui.

- Eu quero os documentos dos dois! AGORA!

Pior do que mentir é só afirmar ingenuamente que estava mentindo. É acumular pontos no jogo onde o bacana seria perder, mas...

- Está aqui...

Sempre saio muito mal em fotos 3x4. Minha cabeça parece maior. Minha orelha sempre parece torta e não gosto muito da luz branca me transformando em um fantasma. Mas só tem uma coisa pior nisso tudo.

- Margot... Eric...

...

Silêncio

...

- Margot... Eric...

Enquanto o mundo parecia parado ali, ônibus distribuíam corpos em movimento para diversas regiões do país. Pessoas vindo de São Paulo, pessoas voltando para Curitiba. Juiz de Fora. Região dos Lagos. Cabo Frio. Saquarema. Araruama e Rio das Ostras. Pessoas com frio! Pessoas que foram estudar e outras que só foram surfar. Cansados. Apreensivos. Presos nos horários de suas viagens

Impossível andar na rua e nunca encontrar pelo menos um rosto que já fora batido em outro retrato.

- Margot... Eric...

Na terceira repetição Eric já imaginava como seria andar igual caranguejo, como em seu sonho. Margot! Centrada! Calada! Ajustada nos movimentos que emitiam os lábios do fiscal! Talvez tenha sido realmente burrice partir ali, logo ali. Dessa forma, sem estudar, sem racionalizar o que poderia vir. O que aconteceria. O que poderia acontecer.

- Venham comigo...

Margot foi a primeira a sair correndo! Eric sem pensar foi na mesma direção! Fugiram!

- Guardas! Comunistas fugindo!

Pegou a bola antes do meio de campo e começou driblando! Um, passou outro. Deslizou a bola por debaixo das pernas do primeiro zagueiro. Limpou e cortou para o meio da grande área. Ajeitou com o pé esquerdo. Ainda tinha mais um zagueiro. Pronto para quebrar suas duas pernas de uma só vez. Não vai conseguir jogar os próximos jogos! Vai ficar no banco. Era só atacante e zagueiro, um contra um e depois... Caixa!

Uma porta e a Rodoviária passaria a se chamar Calçada.
Mas sabe quando tudo parecia azar segundos antes e com uma jogada tudo muda?!

Os dois conseguiram ultrapassar o limite da porta, adentraram a nova região. Mas quatro guardas já estavam dispostos a dominar a situação e por fim nessa perseguição cinematográfica.

Um Fusca parou

...

- Corre aqui para dentro do carro!

- Fernando?

...

Um sorriso vindo da menina e um respiro mais calmo do menino.

Acelerou e foi. Os quatro ficaram para trás. Reconheceram a rapaziada e quiseram levar para salas escuras. Saber do que já sabiam, mas gostavam de bater para saber de novo e até mesmo saber um pouco mais, só para ter mais certeza do que já, realmente, sabiam.

Foram até a Tijuca.

- Acho que vocês me farão companhia por um tempo

Cansados, descansaram...


Para acordar com idéias novas, é sempre muito bom colocar as usadas, antigas, de molho por no mínimo oito horas. No período noturno o nosso agente trabalha com mais eficácia, renovando os frutos criativos e preparando para novidades o dia que vier no decorrer da sequência.

Por isso, sempre é bom descansar



Continua.





Leonardo Fonseca

21 de jun. de 2010

#1968 - Primeiro ato

- Eric! Você acredita que o mundo vai acabar no ano Dois mil? Vi meu pai conversando com um amigo dele sobre isso. Aí fiquei curiosa. Li sobre alguns videntes, esses caras que veem o futuro. E até falam que está tudo nas estrelas! O alinhamento...

- Vou ter cinqüenta anos! Um senhorzinho?! Ou estarei no auge da vida?! Brindando? Saudando?! Injusto! Muito injusto mesmo!

- Nas estrelas bicho! Nas estrelas! O futuro está no céu e a gente fica tentando sobreviver nesse mundo?! A ordem está invertida, só pode ser!

- Não serei avô?! É isso?!

- É meu amigo, não!

- Margot?!

- Oi?!

- Você está doidona?!

- Estou!

Acende um incenso para espalhar essa fumaça. Viaja o necessário, sai do mundo e volta quando realmente as pessoas respeitarem as nossas diferenças. Desse para cá só quando estiver mais calmo. Relaxa um pouco! Tenta abstrair as dores e aflições. Ninguém é igual a ninguém! Somos todos diferentes, mas não aprendemos a nos organizar mesmo depois de várias gerações. O poder sempre define como deve ser tua rotina, como deve ser a sua forma de pensar e a comida que alimentará as bocas do seu apartamento. Lugar nobre da cidade. Jardins. Augusta. Alameda Tietê. Vila Madalena. Trabalhou para isso, não foi?! Aprendeu a falar língua estrangeira para garantir um salário maior, mas nunca conseguirá ver o Mickey Mouse de perto! Meus Pêsames! Hollywood bem bacana na entrega do Oscar, e só! Parabéns para sua vida média! Tudo isso é causa do problema causado pela sua preguiça de pensar. Da incapacidade de parar e pensar. É só pensar. Analisa que algo errado está acontecendo. Algo que vai além da sua crítica superficial sobre a roupa da sua vizinha. Algo que está acima da sua rotina básica.

Mil Novecentos e Sessenta e Oito! Farão Cinquenta anos quando Dois Mil chegar. Mesmo Se o mundo acabar! Se ficar, Se for, Como for! E mesmo se não For. O presente momento é incomodo. Apertado! Como sapatos de couro que demoram a encaixar direito no pé. Marca o calcanhar. Machuca os dedos. Essa roupa que me vestem é apertada demais. Não consigo ir além da velocidade que posso. Estou realmente barrado nessa situação.

Mas!

Vivemos em um mundo onde falar é proibido! Vivemos em um mundo onde cantar também é proibido! Não pode desenhar! Escrever cartas! Pensar alto! Pensar diferente! Mas não somos diferentes?! Sei! Sei Bem! Não se muda o mundo em um ato só! Não com uma só revolução. Mas sim! Explosão de acontecimentos contínuos!

Cooperação mutua!

Nesse mundo é tão difícil!

...

- Eric! Tenho um assunto delicado para conversar com você!

- Ah! Já está apaixonada por mim?! Não pode passar duas semanas comigo que já está caidinha de amor por mim, não é?! Eu sou fogo!

- Você é um ridículo de merda! Mas não posso sair daqui agora! Se pudesse! Se não dependesse da sua vida, já tinha chispado daqui! Muito tempo atrás, meu amigo! Mas não posso abandonar a criancinha, né?! A “menina” não sabe se virar!

- Tudo bem! Eu não brinco mais, ok?!

- Eu tenho que falar! Você vai me ouvir?! Não podemos ficar aqui parados, presos dentro desse apartamento. Seu irmão se foi e não foi em vão! Perdemos, mas não podemos desistir! Eles precisam nos ouvir! A gente não pode ver o mundo girar e não atuar!

- Não levaríamos um tiro no primeiro grito?! Não seriamos punidos na primeira tentativa?! Arrancariam minha vida aos poucos. Com golpes violentos na boca do estomago. Socos na nuca. Chutes pelo corpo inteiro! Seriamos pegos! Não!

Comando de Caça aos Comunistas! Não fazer parte da festa é um crime muito pesado! Levam-te tudo! Levam-te a vida! É por pura sacanagem! Ninguém sabe de fé o que está fazendo aqui, mas gostam tanto de brincar de ser desorganizado! Não tem consenso e não entendo a razão disso acontecer por tanto tempo! Mas está muito acima da minha ossada esse artigo.

- Vamos para o Rio de Janeiro! Tem mais gente querendo brigar! Tenho lugar para ficar e até armas se precisar. Que tal uma Bossa Nova por uns meses?

- Nem te conheço! Como que vou para um lugar que nunca fui com uma pessoa que não conheço?! Tem duas semanas que estamos foragidos. Já disse! Foi à única opção, mas não sei o que estou fazendo aqui! Meu irmão, cara! Ele sim, mas Eu não!

Quando estudarem Mil Novecentos e Sessenta e Oito, os professores anularão alguns detalhes! Meses muito pesados para se explicar para uma criança! Melhor não! Fala que foi um Português barrigudo que descobriu esse país! Diz para elas todas que ensinaram os índios a falar a língua deles e que de quebra nós aprendemos também. Mal falado! Mas quem está certo aqui?! Depois dos índios, criaram uma sociedade corrupta! Feita de pessoas que gostam de disputar o invisível, porque nem vivendo Vinte vidas serei capaz de saber realmente qual a melhor forma de se viver essa vida. Onde cabe tanto dinheiro? Tantas casas para um corpo só?! Tanta comida só para essa sua barriga peluda? Para que?! Levam um amigo meu e não me deixam falar...

- Grito sozinha! Pode ficar aí! Faço a sua parte lá se for preciso! Até mais ver...

- Tenho medo sabia?! Já te contei isso?!

- Sempre teremos medo nessa vida! Até quando a gente liga o chuveiro à gente sente medo. Se por acaso cair uma gota de água fria o corpo já fica espantado e se encolhe. Sem motivo! Sente medo de cair e presta atenção em tudo! Tem medo de dizer o que acha! Tem medo de cantar desafinado! Tem medo de estar acima do peso e não parecer elegante! Todo mundo tem medo cara!

- Fecho os olhos e lembro-me dos dois estalos! BOOM! BOOM! E mais nenhum sinal de respiração! Eu só tenho dezoito anos... Não quero conhecer o inferno antes do ano Dois mil.

- Te trago com vida! Não se preocupe! Confia em mim?!

Margot tinha amigos loucos, de calças de flanela, largas, barbudos. Foram de carona para o Rio de Janeiro. O Frio de lá é menos Frio do que o Frio de São Paulo e não precisaram encapotar seus corpos brancos. Mais de Cem mil se encontrariam no dia Vinte e seis desse mesmo mês. O baile só fica legal depois que começa a encher. Quando o ponche está no seu lugar. Vermelho! Bandeiras! Meninos e meninas. Revoltados e sorridentes! Vamos gritar em paz para ter a paz que precisamos!

Houve tumulto, houve bagunça e pessoas correndo! Fugiram e foram descansar. O mundo gira loucamente quando se tem dezoito! Percebe-se diferente. Percebe-se pela primeira vez. Menino longe de casa, sem saber, sem conhecer. Conhecendo ali! Vivendo! Cheio de medo, mas qualquer um ali se cagaria...

...

Enquanto gritava, sentiu raiva!

Quem é o esperto que consegue respirar com calma agora?!

Levaram e não me deixaram dar adeus!

Festejam suas falsas amizades, brindando nossa ignorância!

Sentiu o sangue subir!

...

Fim do Regime. Fim da Censura. Fim das mortes sem razão. Fim do Fascismo fora de época. A moda italiana já se foi, mas onde uma vez foi atrasado, sempre será atrasado. Demora, mas acontece, o problema é começar!

- Margot?!

- Pois não!

- Muito obrigada companheira!


Junho de 68






... sedentarismo cerebral é a pior doença do mundo moderno!
Parta do principio e continue.

Só!



Leonardo Fonseca