13 de jul. de 2010

#GLORYBOX - Parafraseando o Terceiro Pecado Capital

Eu já falei para não esfregar esse nariz assim em mim. Tira essa camisola do corredor que alguém pode chegar assustando. Começa logo, começa logo. Eu respiro fundo. Está sentindo? Calor, não é? Muito quente, quente por demais. Usa, bebe, continua usando. Sujeira? Depois a gente limpa! Porco? Imagina! É tudo ponto de vista. Tudo é ponto de vista. O ponto de vista é um ponto de vista. Cada qual enxerga como pode e como quer enxergar. Ninguém enxerga o que é de verdade, tudo um bando de medroso. Não assume postura de rei e continua fazendo o que tem que fazer e por favor, faça direito. Desce com a língua até o osso depois do pescoço. Morde meu ombro. Morde meu braço. Continua mordendo. É sentindo dor que sinto meu sangue pulsar e ele vira a esquina a quase a cem por hora bate com muita força. Arrebenta a frente do carro e acaba com a vida de todos os passageiros. Jogando para fora o que parecia ser vida, mas ali ninguém sabia aproveitar mesmo, nem me importo com os descompromissados. Faz como quer, mas se for inteligente, compra algumas instruções pelo canal de vendas da TV. Enquanto parcela sua compra eu enrolo mais um. Dixavo na palma da mão, sempre esfarela um pouco e suja tudo. Mas quem se importa?

Nem me importo com as bombas lá fora. Se o céu está verde, se o mar amarelou. Não me importo com isso agora. Só quero saber de dançar e te ver caindo comigo. Levanto depois de três dias, com o meu corpo mais cansado do que o teu. Com o meu corpo fedendo muito mais do que o seu. Cheiro de menina. Limpa, única, perfeita só para mim e um jogo de mil e quinhentos pecados acumulados em um coração chateado. Mas nem encana, já esqueci o que me deixou assim e continua fazendo. Já disse para não parar. Esse é o meu jeito, se não gosta de brincadeira, conheço umas dez pessoas que dariam muita risada. Nem me importo. Na real, me importo menos do que você pode imaginar. Só tenho medo de parecer anti-social demais, solitário, cansativo até. Parei de me importar quando parei de te levar a sério. Frases pré-montadas, mas relaxa. Não é hora para julgamentos aleatórios. Continua! Estava em transe, estava bem distante daqui. Ouvindo teus pulmões puxando com força oxigênio para dentro deles. Pulsando forte, fazendo barulho. Apertando a borda da cama. Silêncio.

Me desculpa, puxei com muita força. Essas marcas vão te fazer lembrar por uns dias, como tatuagens passageiras. Marcadas com um pouco de dor. Prazer, um pouco mais de dor e música baixa, ali tocando de leve. Soando bem aos ouvidos. Cantando palavras bonitas, sei te deixar feliz. Sei o que agrada também. É a mulher mais bonita do mundo. Pernas, braços, cintura. Sua camisa ali caída no canto, emoldurando a situação. Quando entrou e bateu a porta logo meu coração ficou diferente. Falou e cantou até o final do corredor. Soletrando desejo de uma forma que nunca tinha reparado. Que droga é essa que é você que não consigo largar? Que droga é essa que é você que não consigo tirar de perto de mim agora? Me desculpa de novo, falei demais. Quero prestar mais atenção. Sentir. Calado eu sinto melhor, sigo o movimento de olhos fechados, tateando meu tecido nervoso. Não chovia, mas senti um raio passando energia por minha coluna cervical, fiquei arrepiado, como uma criança de dois anos, não consegui pronunciar nenhuma palavra por inteiro. Sílabas ficavam pela metade e não se completavam ao fim o contexto.

Só de sacanagem, para de me olhar assim! Está toda a dizer que pode mais, mas nem parou para calcular. Faz plano depois, vive o momento que o logo passa rápido demais para esperar o próximo vagão. É um tempo indeterminado pelo dono da regra das coisas que tenho por perto. Ele vacila e me esquece por um tempo. Passa longe e não grita meu nome, fico aqui sozinho. Cantando como posso, fazendo certas coisas que parecem legais vistas de longe. Mas com você aqui, percebo que o físico é muito mais agradável que a distância. Tocar-te com saudade é sentir como se fosse novidade. Uma volta nova, um cheiro novo.

Um recado de bom dia jogado em cima da mesa, foi-se e nem fez barulho. Foi-se e nem preparou café. Não esperou amanhecer, cretina. Tudo bem! Tudo bem dessa vez. Encantou enquanto pode. Hoje vou pensar sobre outras coisas e focar algo interessante. Ou talvez não. Talvez durma, relaxe, talvez!

E essa música que começa? De onde ela vem?
Alguém escuta ou estou sozinho mesmo?
Levantei!

Não te encontrei e a porta bateu
Foi forte o barulho, mas não devia estar com raiva
É pressa, é vula!

Um recado vermelho no espelho

Não pude esperar, logo parti
Mas espero em breve te encontrar
E resolver aquilo que ainda não fiz

Se não se encanar
Volto para te amar
Até quando der

De olhos fechados eu tenho o mundo que eu quiser.



L F.

11 de jul. de 2010

#PAUSEANDO - Cura

Logo ali e foram dois tiros que me fizeram abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Assustado, logo deixei cair no chão tudo que estava em meu colo. Foi de supetão, vestindo com rapidez meus dois sapatos, cobri meus pés, ergui meu tronco, em prontidão, já estava posto para luta. Sem sonhar nessa última noite de sono. Deixei de sonhar mês passado quando assisti a última derrota. Sofri tanto que preferi dormir mais rápido para não lembrar mais nada depois. Quero esquecer tudo quando acordar. Sem detalhes, sem formações e ninguém para responsabilizar a minha falta de responsabilidade. Até acho que dormir foi demais, mas a quantidade que incomoda muito. Meu corpo não cresceu e os muros ainda estão pela metade. Faltou cimento para construir o quarto do fundo e passei o último ano usando só uma calça. Não é modéstia, não é simplicidade. É a falta do que fazer e a falta me fez faltar até água para gelar. Fiquei assustado e apalpei o corredor até a porta do banheiro. Lavei meus olhos e percebi melhor. Senti, olhei e conversei sozinho. Acorrentado por dias, foi bom levantar, foi bom ver que no presente ainda me cabe um pouco de vida para viver. Se respirar é viver, cumpro com excelência o objetivo que me foi pré-disposto.

O odor identificava que fazia dias que água passava longe. Sem higiene, sem luz, sem amigos e mais ninguém que fosse honesto o bastante para me entreter, me alegrar, apaixonar. Roupas apertadas incomodando o dia todo. Fazendo de conta, faço muito bem de conta. Sorrio e pulo, sal demais agrada quando a fome é muita. Quando a fome sobe ao limite do aceitável. Aceitar é simples! Coloque até o centro. Encoste em sua língua e sinta. Sentir é básico. Uma menina no corredor de trás veio me dizer durante a manhã que sabe realmente das coisas, mas nunca foi até a esquina buscar pão sozinha. Nunca foi até ali se encontrar consigo mesmo, para tirar um dia e conversar, aceitar e conhecer a curiosidade alheia. Conhecer aquilo que teme. Continua tendo medo sem ao menos se molhar. Chorei de medo durante quinze dias sem parar. Era tiro para todos os lados o tempo inteiro, impossível não temer aquela que estava próxima dos corpos que desabavam. Casas e ruínas, secas e discórdia. Diz saber, mas só sabe da cor do cabelo alheio e qual roupa cairá bem. Diz saber e continua presa, continua prendendo e parece que não quer se soltar de jeito algum. O restrito já é o suficiente. Mas para ganhar um papel proveitoso nessa revolução, doarei minha boa vontade e no final nomearei essa fase com suas iniciais, de bom grado, felizes gritarão em um feriado prolongado, dizendo que foi você que deu um dia de folga para todos esses folgados.

Cansei daqui, cansei dali, cansei desse espaço sem espaço para mim. Cansei da honestidade comprada, cansei da hospitalidade forçada. Do abraço que não é abraço e do sono que não relaxa. Dos dias parecidos e cansativos demais para se orgulhar. Cansei de não ter com que me orgulhar. Cansei de cansar por motivos toscos. Cansei de reclamar da fila do banco e achar que isso que é realmente sofrimento. Cansei de ver as pessoas se cansando sem ao menos suar. Sem aos menos se esforçar em pensamentos. Cansei das pessoas que não pensam. Cansei das que só justificam, mas não movem palhas para construir moradia. Cansei daqueles que gostam de estar presos dentro de banalidades. São só banalidades. Sua vida vai além da reclamação de amor partido. De menino que se foi e não quis levar você consigo. Cansei de ver gente reclamando. Cansei de ser reclamante demais. Cantante só quando posso, para não chorar, para não se lembrar da mãe que me faz falta. Cansei.

Idéias repetidas são idéias repetidas. Sem novidades prefiro estacionar e te ver passar só aos domingos para entregar os jornais. Resultados de futebol, resultados da loteria, resultados dos exames. Não está grávida, pois então não teremos nove meses de novidades. Parados, expostos ao medíocre mesmo do mesmo que vai acontecer. Expostos a poluição que não limpamos. Expostos ao sol sem se proteger.

Como um cão que só late quando está preso em sua coleira. Tenta fugir, por favor, tenta fugir e arranca o braço daquele filho de uma puta. Daquele desgraçado! Tenta fugir! Se solta! Arranca essa coleira e foge. Arranca aquele saco caído que não serve para mais nada. Massacra, deixa o sangue jogado e continua fugindo. Não se importe, cubro por aqui e te defendo.

Não agüento mais esse espaço que não é para mim. Não agüento mais essa coleira que me prende e não me deixa sair. Não me deixa correr, não me deixa fazer, me prende...


Como se não fosse possível soltar minhas mãos





L.

7 de jul. de 2010

#PAUSADO - Carta de Abstinência daquela que não sabe afirmar

Foi inevitável não ligar o nome a pessoa. Tocou tua música. Era realmente sua música. Chamava de nossa até um tempo atrás. Mas ficou só para você. Deixei minha vida seguir e conheci outras canções no decorrer da caminhada. Passei por cidades e tive amores. Tive pessoas e mesmo assim é para sempre essa música. Sabe quando é complicado explicar? Até tento explicar o filme que vejo em minha cabeça, mas com você, prefiro só ouvir a música mais uma vez. Lembrar do seu cabelo. Do seu cheiro. Por noites senti seu cheiro em outros pescoços, mas é o teu cheiro. Sinto passar em um cabelo na fila do banheiro. É o seu cheiro. Decorei. Assim como sei tua voz, o jeito que você respira enquanto dorme. Desculpa se disse que não era especial. Só quis parecer duro, rude, não sei! É nessas horas que a gente acaba soltando aquilo que nem repara, mas acha que é poder mágico durante briga e solta. Não foi por querer. Adoro o jeito que você olha para as coisas e o apelido que deu para tudo que faz. Seu jeito, realmente, é o seu jeito e o de mais ninguém. Em uma comparação tosca. Seria como as predefinições dos lanches dos Fast-Foods do shopping. Padrão. Daquele jeito e não muda. E penso! Mudar para que? Qual a função real da mudança? Ligação e comprometimento? Como que funciona e por que funciona? Na real... Não sei. Mas sempre adorei o seu jeito e se disse para mudar, não se encane, estou mais sóbrio agora. O amor às vezes me deixa um pouco bêbado. Destilados são assim e o amor é como uma Vodka russa. Pesada. Esquenta até o ego! Entrelaça as pernas, fica bambo, cai para o lado e pronto! Você não estava mais lá para cuidar de mim e vomitei por todo corredor. Foi feia a coisa!

Falando em Fast-Foods! Sempre adorei o seu gosto, a sua comida e o seu tempero. Picante, doce, variante. Delicado, suave e devastador. Separada por cores, frias e quentes e pelos dias mais cinzas anda pelo preto, só para afastar o azar com uma cara bem amarrada. Mas tudo bem, amarga durante um mês, ou dois. Voltava quando passava e tudo ficava mais gostoso ainda. Sobremesa, morango e torta de limão. Azedo, doce e um pouco de tudo para não enjoar nunca, mas deu dor de estomago. Relógio sempre trás uma dor desnecessária. O administrador daqui disse para ligar depois do expediente que ele explica um pouco melhor esse funcionamento chato, fico impaciente só de lembrar. Trabalhava durante a semana, passava com quem não queria passar. Meus chefes eram tão chatos! Desejava você de segunda a sexta, mas só podia no sábado a tarde, depois do curso de inglês. Não dava tempo e ainda assim, você não entendia o pouco tempo que eu tinha. Tudo bem! Já foi.

Quando sonhar comigo, pensa em mim quatro vezes. Da primeira para segunda, talvez eu nem sinta muita coisa, mas com certeza quando estiver próxima do quarto pensamento, uma luz pisca. Eu já vou saber de onde veio. Não te falo para passar aqui depois, no final de semana, ou antes, porque sei que não vai poder. Tem compromisso, faz aula, tem família, até achou um namorado. O cara me parece bacana, temos amigos em comum. Continuo reclamando e achando o amor um saco, mas encontrei uma loja sensacional. Parcela em mil vezes o Amor e transforma em algo tão banal que só esse mês eu comprei mais de vinte e levei comigo para balada! Doze beijos roubados e não descobri um nome. Pula essa parte, vai para o nono artigo!

Aquele que fala que nunca te esqueci e admiro sem olhar. Sentindo sua existência. Sentindo sua falta e sabendo que é a melhor pessoa do mundo. Reclamar é para quem não gosta de ganhar abraço. Não se perde nem se ganha! Foi tudo inventado! Ninguém sabe de nada, continuam achando, mas no básico todo mundo ainda se ferra. Tropeça, agride. Desencana!

Para cada dia, devolveria três no calendário só para repetir o que já foi
Ligava o Loop e ouvia mil vezes a mesma música
Usava mesma roupa

Ia parecer um louco ali
Circulando, voltando, indo
Ia aparecer um louco ali

Não tem problema


E se tiver


Eu resolvo





Libra D.

4 de jul. de 2010

#PAUSA - Palitando os dentes

Olha para cima que é luz do dia
Cuidado com o taco debaixo, pode tropeçar
Antes de começar, aviste sempre o necessário
Se for sábio saberá...

...que tanto faz se passar

Se voltar, aviste com mais calma um pouco
Nega um pouco, descansa bem o almoço
Tranqüiliza essa cabeça que logo começa

E tanto faz se passar

Aproveita no início e segue
Esquerda, direita, esquerda e vira
Nunca ninguém vai desconfiar
Tem até um troféu para o primeiro que arriscar

Na vida não tem prêmio ou vencedor
O único sempre em evidência é o pecador
Leva consigo maldade
E tenho certeza que não é vantagem

Faz da Segunda o melhor dia
Depois comemora a Copa

...

E com seu jornal debaixo do braço
Espera sua vez, mas não deixa o tempo passar
Corre e sempre tenta aproveitar


Não me segue, porque sempre faço tudo errado!


Mas quem disse que é ruim?




Leo Fonseca

30 de jun. de 2010

#1968 - Veículo de transição

Duas sombras adentraram como vilões a janela do quarto. Esbarraram em tudo. Um abajur foi ao chão sem se preocupar com ruídos. Barulho diferente para cada passo dado. Barulho para cada esbarrão, para cada objeto que ficava pelo caminho. Demarcando com migalhas o futuro local do crime. Percorrendo todos os cômodos procurando por alguém que ainda respirasse! Alguém que ainda criticasse, alguém pronto para falar mal da escolha Militar. Bate essa mão no peito e canta o hino sem errar. Ame sua bandeira! Apaga tudo de errado que acontece e abstrai! Joga de canto e faz tudo. Nasceu burro e vai morrer pior ainda.

Foram pelo corredor até o fim. Passaram por duas portas que estavam abertas. Foram direto e não encontraram ninguém. Os meninos saíram para comprar algo para jantar e as meninas se espalharam por outros cantos. Em punhos armas cromadas. Uma águia brilhante e treze tiros prontos. Cuspidos tirariam a vida de qualquer um.

Ídolo! Presidente da República! Qualquer porra!

Qualquer um cairia no chão e só acordaria, caso ainda tivesse chance de acordar! Seja lá onde for. Se não, cairia dolorido demais para falar mais alguma palavra e com mais um tiro morreria.

No final do corredor uma porta semi-aberta! Uma luz e movimentos! Um idiota! Com tanto barulho eu já teria mudado de canal. Passava a página! Mas não!

- Comunista de Merda! Comunista de Merda!

- Mato agora? Deixo pra depois?!

Depois da segunda interrogação o menino já andava como um caranguejo pelo chão. Caído, indo de um lado para o outro. Ridículo! Com medo! Respirando como um cão...
...

Um disparo!
...

- Não gasta bala assim, seu idiota!

- Atiro no teto quantas vezes quiser... Pega esse maricas aí!

Na hora que o primeiro disparo foi parar no teto duas coisas aconteceram!

1 - O maricas acabara de marcar suas roupas íntimas!

2 – Ele pensou... “Estou vivo?”

...

Sim, sobreviveu!

Idiota!

- Essa eu não vou errar!

Com muita violência no seu olhar o nobre rapaz mirou com precisão seu alvo dessa vez e esse não era o teto! Sairia sangue dessa vez, mas nem pensou muito na sujeira que faria.

Puff!

...

- Eric, você está sonhando mais uma vez? Não consegue dormir e ficar quietinho nunca?! Meu Deus do Céu Cara!

Eric levanta suando frio! Bufando! Cansado! Mas era, realmente, somente, mais um sonho.

- São esses malditos remédios que estou tomando para essa maldita gripe! Você sabe disso!

- Tudo bem! Descanse então! Se cobre direito!

Não se cuidou e ficou doente! Vacilou! Tomou friagem, esqueceu o casaco e deixou vento gelado bater no peito. Não cobriu as orelhas antes de dormir. Mês de julho começando. Mês de frio. Festas Juninas só ano que vem. Quentão só ano que vem. Junho foi-se e só deixou o nariz escorrendo para quem se resfriou. Toma um chá quente e coloca um agasalho. Fica de molho por um dia. Antiinflamatórios. Antibióticos. Anti-bactericidas? Não sei! Mas caso necessário, durma de meia!

Fazia frio!

Estavam alguns dias fora de casa já. No Rio de Janeiro e em um clima estranho, mas já haviam articulado uma forma prática de voltar para perto de casa antes que estourasse uma bomba. Era perigoso, mas era necessário.

Depois do tumulto causado dia vinte seis, seus rostos já não brilhavam como antes. Pareciam reluzir entre outros jovens. Parecia funcionário andando de crachá pela rua. A Dona de Casa. O Chefe de Família. O Filho. A Filha. Safada. O Cansado. O Vagabundo e o Menino que Queria Mudar o Mundo.

Mudar o mundo!

Colocar o planeta para girar ao contrário!

Faz a noite e dorme de manhã. Faz de manhã e dorme depois do almoço, sem ninguém para reclamar da sua preguiça!

- Vamos! Já estamos atrasados!

- Foi você se maquiando! Foi você que atrasou todo processo! Eu esperei mais de meia hora! Lerda!

Se resumir em pensamentos que a zona Central de uma cidade deve ser a mais fácil de chegar, por estar Centralizada. Ligada a Zona Norte. Oeste. Leste e Sul! Qualquer zona chega ao Dentro! Todo centro liga para toda zona. Menos para a verdadeira Zona!

Bagunçada!

- Onde fica mesmo a rodoviária Margot?

- Região portuária! Centro do Rio de Janeiro, por quê?!

- Estamos longe ainda?

- Vamos descer aqui motorista!

...

E o taxi parou!

...

Antes de colocar o pé direito para fora do automóvel, Margot já percebera que dois homens fardados vinham pelo lado esquerdo, fazendo a esquina. Abaixou teu chapéu, vestiu uns óculos escuros e saiu do carro. Parecia Gringa. De vestido! Eric conduziu cada movimento no mesmo compasso que sua amiga. Seguiram invisíveis até adentrar a rodoviária.

Pareciam em um campo de guerra! Cercados de mongóis e mouros! Espalhados por todos os cantos. Rifles e escotilhas. Tochas e cavalos brancos. Sem armaduras os mais fortes e entocados os mais frágeis. Alguns de bigode. Barbas serradas.

Cinco metros se tornaram quarenta quilômetros!

Quando estamos em minoria, a maioria sempre dá as caras...

- Estão com seus documentos?!

Pior do que pedir para mãe assinar Prova de Matemática quando a nota está vermelha! Até mesmo pior do que o sentimento que tem o garoto, quando seus amigos contam para sala inteira qual a menina que ele está apaixonado! Nessa hora o rosto fica vermelho! Nessa hora o coração bate muito mais forte!

- Não senhor! Não estamos com os nossos documentos!

- Como não?!

Mentira! Sempre a primeira e mais burra forma de resolver uma situação quando se está com muito medo. Aplicar a verdade é simples, mas em determinados momentos, vale a pena arriscar. É tudo ou nada! Se joga de cara e vê no que dá! Pode dar vacilo, pode dar solução. Só depois da retórica que se conclui.

- Eu quero os documentos dos dois! AGORA!

Pior do que mentir é só afirmar ingenuamente que estava mentindo. É acumular pontos no jogo onde o bacana seria perder, mas...

- Está aqui...

Sempre saio muito mal em fotos 3x4. Minha cabeça parece maior. Minha orelha sempre parece torta e não gosto muito da luz branca me transformando em um fantasma. Mas só tem uma coisa pior nisso tudo.

- Margot... Eric...

...

Silêncio

...

- Margot... Eric...

Enquanto o mundo parecia parado ali, ônibus distribuíam corpos em movimento para diversas regiões do país. Pessoas vindo de São Paulo, pessoas voltando para Curitiba. Juiz de Fora. Região dos Lagos. Cabo Frio. Saquarema. Araruama e Rio das Ostras. Pessoas com frio! Pessoas que foram estudar e outras que só foram surfar. Cansados. Apreensivos. Presos nos horários de suas viagens

Impossível andar na rua e nunca encontrar pelo menos um rosto que já fora batido em outro retrato.

- Margot... Eric...

Na terceira repetição Eric já imaginava como seria andar igual caranguejo, como em seu sonho. Margot! Centrada! Calada! Ajustada nos movimentos que emitiam os lábios do fiscal! Talvez tenha sido realmente burrice partir ali, logo ali. Dessa forma, sem estudar, sem racionalizar o que poderia vir. O que aconteceria. O que poderia acontecer.

- Venham comigo...

Margot foi a primeira a sair correndo! Eric sem pensar foi na mesma direção! Fugiram!

- Guardas! Comunistas fugindo!

Pegou a bola antes do meio de campo e começou driblando! Um, passou outro. Deslizou a bola por debaixo das pernas do primeiro zagueiro. Limpou e cortou para o meio da grande área. Ajeitou com o pé esquerdo. Ainda tinha mais um zagueiro. Pronto para quebrar suas duas pernas de uma só vez. Não vai conseguir jogar os próximos jogos! Vai ficar no banco. Era só atacante e zagueiro, um contra um e depois... Caixa!

Uma porta e a Rodoviária passaria a se chamar Calçada.
Mas sabe quando tudo parecia azar segundos antes e com uma jogada tudo muda?!

Os dois conseguiram ultrapassar o limite da porta, adentraram a nova região. Mas quatro guardas já estavam dispostos a dominar a situação e por fim nessa perseguição cinematográfica.

Um Fusca parou

...

- Corre aqui para dentro do carro!

- Fernando?

...

Um sorriso vindo da menina e um respiro mais calmo do menino.

Acelerou e foi. Os quatro ficaram para trás. Reconheceram a rapaziada e quiseram levar para salas escuras. Saber do que já sabiam, mas gostavam de bater para saber de novo e até mesmo saber um pouco mais, só para ter mais certeza do que já, realmente, sabiam.

Foram até a Tijuca.

- Acho que vocês me farão companhia por um tempo

Cansados, descansaram...


Para acordar com idéias novas, é sempre muito bom colocar as usadas, antigas, de molho por no mínimo oito horas. No período noturno o nosso agente trabalha com mais eficácia, renovando os frutos criativos e preparando para novidades o dia que vier no decorrer da sequência.

Por isso, sempre é bom descansar



Continua.





Leonardo Fonseca