As relíquias de meu avô.
Cena 1 – Como ninguém me percebeu aqui?
Passo por essa sala todos os dias e sempre avisto ali no canto uma caixa. Uma caixa que ninguém nunca meche. Se ela aprendesse a andar, possivelmente encontraria no ponto de ônibus, pegando integração para qualquer lugar da cidade. Não ficaria esperando mais pelo Natal que nunca vem. Laço vermelho, sem digitais, intocável! Sua tampa verde, combinando com a cor marrom do seu corpo largo. Gordo e pesado! Tem um brinquedo ali dentro. Tem uma bomba, tem um relógio, tem saudade de alguém ali! Mas deixei de lado e caminhei até a cozinha para buscar dois copos d’água, para refrescar meu estomago incomodado, chateado com a má alimentação. Fui mal educado durante o dia e agora ele reclama, faz sentido!
Cena 2 – Teste e reflexão.
Na Terceira Golada, percebeu, fechou os olhos e engoliu. Largou o copo em cima da pia, esbarrou no batente da porta e voltou para sala. Agora pensando em meia dúzia de coisas que não habitavam sua cabeça antes do segundo gole. Estava em dúvida sobre aquilo que se esconde dentro de um segredo tão próximo, mas por verões, tão distante. Segredo de namorada que não quer dizer que saiu com a amiga. Saiu escondido para ninguém brigar, fazer o certo para si nem sempre é o certo no modo padrão das pessoas comuns, ridículas, porem, denominadas “normais”. O que será que guardaram ali? Sentou em uma poltrona semi-mofada, encostou os cotovelos nos joelhos e ficou a observar, parado, por mais de trinta segundos, calado, inquieto, concentrado.
Cena 3 – Descobrindo a Terra Nova.
Sem pensar, esticou os braços no primeiro minuto de silêncio. Enquanto comemoravam vitória do time, puxou primeiro o lado esquerdo do laço, que desvirginidado, partiu-se, virou uma fita vermelha, só mais uma fita. Faltava então o muro cair, a caixa se abrir e a tampa foi tirada com calma, para não se partir ao meio. Quina por quina, parte por parte, delicadamente posta ao lado da poltrona, no criado mudo, observador de todos os movimentos da casa, diariamente, calado, enxergando com calma aquilo que abstraem. Os detalhes, a lerdeza e a paz. Ainda em silêncio o primeiro olhar foi atirado com dois toques no gatilho, sem ruídos, silêncio absoluto. Olhos para um lado, olhos para o outro, procurando encostar com a vista aquilo que deixara de ser segredo e agora se tornara novidade. São fotos! São fotos!
Cena 4 – Como não te percebi ali me olhando antes?
É você mãe, é você Pai. Você de branco Mãe. Você de gravata borboleta, meu Pai. Corríamos muito nesse dia. Estava para chover! Eu me lembro, ia começar a chover! Adorava essa bola, adorava essa casa, adorava. Minha primeira nota vermelha e a mamãe gritando do primeiro ao último degrau da escada. Soletrando com raiva que meu boletim não deveria retornar colorido. Monocromático. Preto e Branco. Que saudade! Quando minha irmã era minha maior companheira. Dividindo cada história, dividindo cada assunto novo na segunda. Primeira aula matemática. Segunda aula geografia e pretendo me mudar para Argentina, lá alguém vai me entender. Minha orelha de Mickey e os bonecos jogados na piscina. Final de semana na praia. Macarrão com molho branco. Bolo de chocolate e sete sementes de uva depois da meia noite. Comemora o Ano Novo comigo esse ano? Morro de medo de ser o último. Seu abraço partiu e partido agora se foi. Guiado por algo que não sei, levado pelo que já foi, ficou o que pode, mas nem sempre fica o tanto necessário para apaziguar, para acalmar adolescente com medo do escurdo. Depois porrada no olho esquerdo. Caiu. E agora sem tempo de voltar. Só pode sentir falta.
Lembranças.
Leonardo Fonseca
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