Lucas me chamou de canto e disse no meu ouvido gritando...
- Ela tá chegando!
- Mano! Quem está chegando?! Visita?
Pestanejou de sombracelha erguida, arreganhada. Espantou, pois não estava a esperar por alguém. Da lista, já estavam todos ali, completos. Ponto de vista? Não sei! Mas Tio Paulo senta ao lado da Tia Hilda, Maria veio com os doces agora a pouco. As meninas estão tomando sol na piscina, mas com um par de olhos puxados, Tia Tereza correu em direção do menino. Espantando. Quem estaria por chegar...
- Lucas! Não era para assustar! Nunca mais te mando dar recado, menino apressado!
- Como assim? Tia está todo mundo aqui, não falta ninguém! De quem ele está falando? Todos vestidos, todos felizes, ainda tem algo por vir?
Voltei ao passado com os olhos fechados, trinta segundos para não assustar. Ela sempre acha que estou dormindo, mas com os olhos fechados pensar fica mais fácil. Atrás da minha retina tem o álbum da “Copa de 94” , perfeitamente estampado. Cafú estava novinho ainda, Ronaldo nem tinha engordado. Memórias em filme, memórias contadas em movimento, lembro de tudo sempre e ali não faltava mais ninguém. Só aquela que resolveu voltar primeiro para casa, ficou com tanta pressa de crescer que perdeu a paciência. Bom, pelo menos sobra mais...
- Menino! Não te disseram nada?! Não disseram da Visita?
- Mas que Visita?
Coçou a cabeça quatro vezes e pôs a mão na cintura. Apoiou a perna de lado. Com a boca fechada, em silêncio, cantou o Hino Nacional. Novelos de feno. Poeira. Coçou a cabeça mais uma vez...
- Visita Tia?! Que Visita?!
- Realmente! Realmente! Agora me toquei menino! Não te contaram! Já vou resolver.
E eu lá entendo? Entendo de nada! Virou as costas, adentrou a cozinha e encostou a porta. Parado, pensei mais um pouco. Ordenei os fatos, calculei! Vamos ver! Nada me falta, tenho paz, tenho amor, tenho uma família, a loucura nunca falta, amigos, companheiros, parceiros das quedas, subidas e comemorações sob a luz das estrelas do norte. Quem estaria por vir? Quem? Algumas pessoas se foram, mas sempre se vai alguém. Vou ser passageiro comigo também. Tento aproveitar até as mastigadas, as pisadas e viagem daqui até a Avenida Santo Amaro, Rua do Meu Trabalho. Sonhar é querer tanto, que não paro de sonhar.
A maçaneta virou, uma mão masculina vinha. Quando rosto surgiu. Meu pai! Com um sorriso curto, começando a crescer! Parecia vir pedir “desculpa”, rosto tímido e um escudo enorme. Entendo pouco de defesa, de ataque, na neutralidade, pensei em vários motivos, mas nada se conectava.
- Filho! Teremos uma visita especial! Espero que goste pois será eterna em nossas vidas, uma peça a mais, uma festa a mais, um voz para chamar pelo teu nome. Uma brincadeira. Um sorriso. Dois sorrisos. Muitos sorrisos. Músicas. Nessa vida que nunca nos falta algo para cantar. Alguém para nos encantar. Notas baixas no colégio. Motivo de orgulho. Primeira bimestre. Primeiro nome. Primeiro dia no colégio. Amiguinhos. Bolo. Festa de Aniversário. Sentir-se bobo. Sentir-se novo. Sentir-se tão encantado que seus pés vão ficar travados. Filho!
Sempre mordo a parte inferior do meu lábio quando expresso meu sorriso bobo, miro os olhos para baixo, respiro fundo. Deve ser a cara mais idiota de todas, mas é essa a cara que eu faço quando meu coração começa a bater mais gostoso. Uma lágrima tímida sobe e tudo brilha. Abracei meu pai.
- Uma irmã?!
- Sofia, filho, Sofia.
Arima Tatsuo
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