11 de jun. de 2010

#terradonunca - Sobre os sapatos jogados na Terra do Nunca

- Eu avisei que iria a essa festa! Vai todo mundo cara, não posso deixar de ir. Encontro Anual de Pessoas Bonitas e Descoladas da Terra do Nunca. Faz tempo que não saio para dançar a noite inteira. Correndo até o banheiro, me apaixonando no corredor. Faz tempo que não faço nada que até cansei de fazer nada, preciso fazer alguma coisa.

- Só queria que você não fosse. Estou com medo de ficar aqui sozinha. Ouvi tantos barulhos vindos dali. Acho que o Capitão Gancho voltou Peter. Fico quietinha, não causo nenhum problema. Fica aqui comigo?

Peter estava arrumado. Calça nova, camiseta passada, perfume e barba feita. Estava perfeito. Ele queria ver a noite virar dia e conhecer alguém que ainda não conhecia. Às vezes nem pergunta o nome e a paixão segue por uma nova boca. A juventude pede música alta, não tem como pedir para ficar quieto. Sentado ele vai se estressar!

- Não posso ficar! Não posso! Não posso e não quero ficar aqui dentro! Sem ver nada? Fazendo o que? Qual o problema? Desembucha nanica, abre essa boca e explica o que não entendi direito. Desenha?

- Pode ir! Vai! Tchau!

Seus olhos mudaram de cor. Do verde ao azul. Acompanhado da beleza de um sorriso gigante que aparecera para contemplar o momento. Peter, ignorou qualquer sentimento, pensou com sua vontade. Virou as costas e caminhou até a porta. No terceiro passo, percebeu que alguém ali não estava contente. O ar sempre muda quando as pessoas passam por sentimentos arbitrários. Confuso. Parou ali. Piscou duas vezes, desfez o rosto e disse:

- O que foi garota? Por que te incomoda tanto? Volto com vida! Prometo!

- Eu queria que você me fizesse companhia hoje. Preciso de um amigo. Alguém para conversar. Até posso ficar acordada com você até o dia clarear! O que você acha Peter?

Sem respirar...

- Conversamos amanhã! Quero aproveitar que ainda é cedo e passar na casa do Pedro. Vamos encontrar algumas amigas e de lá partiremos. Até!

Sabe quando você gosta muito de uma pessoa? Gostar é normal. Cada um com um número diferente. Alguns têm mais, alguns menos, mas sempre o suficiente. Todo mundo gosta ou já gostou. Teve um caso, se apaixonou pela menina da carteira da frente. Sentou do lado de uma menina no ônibus e conversou até o centro. Quando levantou deu de encontro com o mais belo conjunto de beleza. E é assim! Todos gostam! E quando menos percebem, sentem e o sentir sempre é uma novidade estranha em um primeiro ver. Pensa-se, calcula-se e às vezes, muitas vezes não admite.

Somos fundamentais uns para os outros e contar isso no meio da conversa parece indigesto. Eu gosto de você! Talvez seja isso que ele precisa para ficar e perceber o que ele nunca percebeu. Sempre se fez de dura essa menina e deixou de lado por vezes. Mas agora ele está saindo e provavelmente voltará apaixonado pela vida. Vai contar novidade durante uma semana inteira. De segunda até sexta o assunto será o mesmo. E ela e seu pobre coração dançarão apertados. Bombeando a tristeza por todo corpo. Levando vontade de dormir até mais tarde por todos os dias. Até que tudo melhore. Mas é muito estranho quando começa a doer algo que normalmente está só ali, bombeando!

- Gosto! Eu gosto. Fica? Te animo, canto! Encanto? Fica? Pode ficar?

Correu até o menino e grudou em seu braço. Até eu ficaria se um sorriso daqueles brilhasse tão perto dos meus olhos. Deu para perceber que ela puxou três vezes o ar. Com força. Respirou com muita força. Encheu o peito e foi.

- Tenho medo de te perder na noite! Tenho medo de te ver na rua. Tenho medo! Tenho medo de uma boca que possa te beijar. Tenho medo que possa se apaixonar. Conhece menina nova e esquece-se da menina velha. Estou acabada né?!

- Está com ciúmes? Sente uma mastigada na região do coração?

Sininho mordeu sua boca. Perdida ali.

- Não seja irônico comigo! Não seja! Não pode!

- Sou sempre o primeiro a ser descartado, deixado de lado. Sempre sou o primeiro a ser esquecido. Nunca me chamou primeiro quando está escolhendo time! Nunca! E agora tem ciúmes? Não se cansou de ter tudo de uma vez? Não pode ser assim! Você que não pode! Não pode!

Nesse momento o corredor ficou vinte vezes maior! Peter procurava no chão a sua vontade de sair de casa. Olhando para baixo, rosto inclinado. Chateou-se! É quando você solta aleatoriamente um pensamento que guardou por um bom tempo, mas que nunca deveria sair de sua boca. E quando ele resolve sair. Nervoso, afoito! Ofegante! Ele machuca mais quem a dita do que quem só capta a informação.

Nunca na vida haverá perfeição entre os seres, pois não há um meio de encontrar a perfeição dentro de nossas limitações. Somos diferentes. Gostamos de coisas diferentes e sempre teremos oposição dentro dessa democracia. Relacionamentos, casamentos, namoros, parcelas do fogão. Briga-se por isso!

- Quer conversar?

- Não Sininho!

- Mas eu posso falar? Posso dizer?

Nesse momento ouviu-se um barulho vindo do sul da ilha do norte, onde habitam dezoito Garotos Perdidos, entre eles dez garotos e oito garotas. Todos se dão muito bem por ali. Gostam de boa comida, cultivam flores maravilhosas naquela região. Apreciam positivamente a loucura dessa Terra. Mas esse som assustou os dois e fez com que parassem de falar para só ouvir o que poderia ser.

Os dois saíram de casa para procurar algo. Ao primeiro ver não aconteceu nada de extraordinário com o nosso mundo. Mas viu-se vindo em uma velocidade uma Garota Perdida, que vinha na direção do contraditório casal.

- Tic Tac acordou e está jogando água para todos os lados. Destruiu vários botes e tem Meninos precisando de ajuda! Peter! Peter! Tic Tac acordou! Precisamos de você!

- Você vem comigo Nanica?

Sininho piscou seus olhos vinte vezes. Contei! Tive que contar.

Ela foi voando atrás de Peter até o local do delito. Botes multiplicaram diversos pedaços de madeira. Todos boiando. Meninos tentavam fugir do crocodilo que partia na direção deles com muita violência. Acho que seus problemas eram imensos. Ele sentia muita raiva em cada mordida que, por Deus, não havia pegado ninguém.

A fadinha puxou a fila para avisar a chegada do seu grande Peter Pan!

- Lagartixazinha! Ridícula! Tic! Tac! Tic! Tac! Que barulho é esse?! Comeu um relógio ou está precisando ir ao banheiro urgentemente?

- Cala a boca Sininho! Vá ajudar os garotos ali!

Minha mãe dizia para sempre prestar atenção em cada coisa que fosse fazer. Isso evita tropeçar no próprio pé. Deixar cair coisas no meio da cozinha enquanto prepara o almoço. Aprende desde cedo a não ser descuidado. Descuidos possuem preços muito caros e quase sempre são aqueles que não podem ser parcelados no cartão de crédito. É á vista e só! Não tem segunda opção! Bobiou, dançou!

Tic Tac assistiu muito bem a cena e resolveu esperar. Contou e no momento certo pulou em direção da fada. Não pegou inteira! Ainda bem! Mas o impacto a jogou para longe. Assustada não conseguiu voar. Suas asas não batiam direito quando sua pulsação fugia a regra. Caiu machucada! Sua luz diminuiu e Peter voou até perto. Enquanto Tic Tac sumia pelo rio.

- Sininho? Ei! Pode me escutar? Por favor! Sininho? Responda!

A resposta não vinha...

- Ei! Sininho?! Não vai! Não vai! Não é pra você ir!

Na mesma quantidade que crescia o desespero, Sininho deixava de brilhar. Sua luz diminui a cada lágrima do menino que não sabia o que fazer. Ela não respondia. Ele falava sozinho! A chacoalhou, mas não adiantou! Estava desligando tudo.

- Ei, fica comigo para sempre? Promete que vai ficar comigo para sempre?! Conta comigo para tudo que for preciso. Se fiz tudo que pediu, fiz por que quis e muitas vezes é te fazendo feliz que me sinto bem. Sabia? É só ter pensamentos leves...

Diz à lenda que a cada primeiro choro de um bebê, uma fada nasce! Mas quando esse bebê cresce, descobre a vida que vai além da brincadeira e sempre parece uma chatisse! Nem todos poderão brincar e acabam esquecendo-se da fada. Essa então cai morta no chão. Espatifada. Esquecida pela infância que acaba sem perdão!

Mas seria um bom conto se acabasse de uma forma triste? Sentindo a falta que alguém pode fazer? Seria interessante terminar triste? Por que me sinto tão triste por aqui? Ela veio de onde? Veio por que? Para que veio?

Não seria legal!

Ou seria?! Seria?! Seria o que? Ah! É só ter pensamentos leves! É só tirar o peso da cabeça e fazer com que ela tenha diversos pensamentos tranqüilos. Penas, algodão. Pétalas de rosas no chão lembram paixão. Paixão deixa o pensamento leve também!

Acredite muito no que você quer. Acredite em fadas. Acredite no seu foco. Acredite no seu objetivo. Acredite na capacidade. Acredite em fadas mais uma vez. Duas vezes mais do que já calculou até aqui, mais uma porcentagem aleatória. Goste mais do que antes! Se entender assim já é o suficiente.

E bata palmas!

Se você acredita em fadas! Bata Palmas!

- Eu acredito em fadas!

Peter Pan explodiu em aplausos. Girava pelo ar. Subia, descia, passava perto da água. Batia palmas, cantava, adorava! Ele acreditava realmente em fadas!

- Eu acredito em fadas!

A luz aumentou! Parecia que tinham acendido uma lâmpada. Brilhava. Brilhava. Foi jogando brilho por tudo ali ao redor. Pulmão já funcionava normalmente!


- Você é o otário que eu mais gosto nesse mundo!

- Mesmo? Sem parar?

- Até onde puder vou te amar Bestão!





E o malvado Tic Tac voltou só na segunda-feira, na hora de voltar ao trabalho.



Leo Fonseca

10 de jun. de 2010

#terradonunca - Como funciona a Terra do Nunca em horário de trabalho

- Vem passar o final de semana aqui? Comigo? Vai fazer frio de sexta até segunda a tarde. Comprei caixas de leite, cereais, chocolates, aluguei filmes. Terror, comédia romântica, massas congeladas e refrigerante. Quatro edredons e um violão. Acendemos uma vela e depois vamos dormir.

- ao amanhecer podemos caminhar pela praia? Quero observar o rosto de todos os velhinhos que lêem notícias. Não cansados da história, acumulam mais um assunto para o café. Com pouco açúcar por favor Peter! Podemos cantar muitas músicas?

- Todas do mundo para você.

Ouviu-se como pétalas voando por campo extenso. Verde, infinito, absoluto.
Calmaria sem fim, que tranqüilidade gostosa. O bebê sorriu pela primeira vez, percebeu o que é a vida e já começou dando risada. Gargalhou e caminhou durante o tempo. Nunca parou de crescer. Mas foi devagar, para não cansar.

A calmaria voava em conjunto de todas as nuvens de algodão. Estrelas brilhando e momentos solitários ficavam para trás. Sua compania faz tão bem. As estrelas estavam ali.

- Olha! Posso comer estrelas Peter Pan! Gosto de falar seu nome inteiro, gosto também de nomes compostos, como aqueles dos meninos da revista. Todos com nome composto! Será que essas estrelas vão brilhar no meu estomago?

- Você está realmente comendo estrelas? Cara! Me disseram que a digestão é tão lenta que vai ficar sem mastigar novidade por três dias. Sua barriga vai explodir de tanta caloria que tem uma estrela. Se for dessas mais brilhantes, novinhas, meu Deus... Cuidado! Sua barriguinha está começando a aparecer.

A menina, sem pensar, direcionou seu olhar para a região de sua barriga e olhou. Apertou. Apalpou. Apertou mais uma vez. Mais duas vezes. Mais oito vezes sem parar. Levantou sua blusa e colocou para fora. Olhou. Apertou. E olhou para o mal educado. Piscou duas vezes os olhos, balançando a cabeça, duvidando, apertando e coçou sua cabeça.

- Eu não estou ficando gorda Peter Pan! Eu! Não! Estou! Ficando! Gorda! Peter! Pan!

Peter de tão preocupado, balançou seus dois ombros ao mesmo tempo. Ergueu até encostar em sua orelha, coçou a nuca bem devagar. Espreguiçou meia dúzia de palavras. Lentas, irônicas, sarcásticas. Ele nem deu sorriso nenhum, mas dava para ver seus olhos que ele ria demais. Sem parar. Engasgou com leite e quase ficou sem ar. Mas parou ali.

- Não falei que você está gorda! Não falei! Só evite comer estrelas e acho interessante fazer exercícios. Poderia seguir o exemplo, não?! Te acho linda assim! Quanto tempo ainda tenho? Meus bônus logo vão acabar!

- Bônus? Por que você sempre muda de assunto? Eu olho na sua cara e nunca te reconheço. Não sei se fala sério, se é piada, se é verdade, se é mentira ou só fala por falar! Não sei! Nem sei se devo saber, nem sei de nada e só de pensar, descubro que é melhor não saber, mesmo! Você está perdido e eu tentando me encontrar perto de você. Não sabe de nada! Mesmo!

Meninas gostam de abraços. Meninas gostam de meninos. Gostam de tardes apaixonadas. Gostam de momentos que ficam para sempre. Recordações. Meninas gostam de muita coisa. Gostam de atenção. Atendimento vinte quatro horas. Servidão. Rainha. Santa Realeza.

Meninos estão soltos pelo mundo. Sem coleira. Sem rumo. Sem destino. Roupa amassada. Cabelo bagunçado. Admirando meninas. Paixão sem fim. Do vagão do metrô. Quando entra menina bonita no ônibus. Vem andando. Vem! Senta do lado. Meninos não sabem de muita coisa mesmo, mas sabem do que precisa. Não precisa de muita coisa.

- Você só sabe brigar? Admito que fica linda quando está com raiva. Se todas as pessoas do mundo ficassem bonitas desse jeito quando estão soltando fogo pelo ar, não teríamos guerra, assalto, briga de bairro, briga de torcida. O mundo serial igual ao Brasil em véspera de Copa do Mundo por todos os anos de existência que restassem aos seres humanos. Se acabasse o mundo agora, não acharia ruim! Mas se ainda assim quiser passar o final de semana comigo, espero segunda para proclamar o Apocalipse! Que tal?

- Não! N!Ã!O!

E não disse mais nada além. Nenhuma vogal a mais, consoante, derivados. Sussurros. Chiados. Barulhos. Ruídos. Nada! Dava para ouvir a música que as formigas trabalhadoras levavam em seus aparelhos de MP3. Lady Gaga não faz Carnaval para formiga trabalhadora. Preferem Samba. São divertidas e boas amigas. Mas nunca ali havia um silêncio tão intenso. Tão quieto que o quieto parecia barulho.

- Tudo bem! Sobra mais chocolate para mim!

O rebatedor preparou o bastão. Girou seu braço esquerdo para frente. Bateu na sola do pé direito e estalou o pescoço. Esticou as costas e rebateu para longe! Jogou para fora do estádio e deu, em estilo, a vitória para seu time! Correu para torcida! Em silêncio.

Ela foi chata até ali! Insuportável! Cansativa e sempre dona da verdade! Meninas não gostam de perder para garotos. São imaturos demais para declarar derrota. Não sabem de nada essas meninas. Não sabem de nada esses meninos apaixonados. Perdidos, nunca concordam, nunca aceitam e se assustam, quando deveriam estar abraçados.

- Você vai comer sozinho? Inho? Mesmo?

- Ah! Se sobrar. Se lembrar. Guardo para você e trago depois do fim do mundo. Depois da Copa. Depois. Deixo guardado. Tudo bem?

- Só depois?

- Só depois Sininho!

Normalmente pessoas perdidas escondem suas colas de prova no chão ou em muros espalhados pela cidade. Sempre procuram as palavras que lhes faltam em algum lugar que desconheço. Miram seus olhares e procuram na tristeza de uma curva mal feita pelo motorista. Sininho olhou para tudo que estava ao seu redor, mas parecia que até mesmo o chão havia saído para almoçar. Corpo leve, mente flutuante. Suspirou. Desejou um brigadeiro. Suspirou. Pensou e cantou...

- Vou com você Peter Pan! Posso?

- Agora e sempre, hoje e amanhã. Quando quiser e se quiser. Para sempre!



Até que a próxima voz levante primeiro




Leo Fonseca

7 de jun. de 2010

#terradonunca - Segunda ocasião na Terra do Nunca

- Vê se não demora no banho dessa vez! Já está tudo combinado! Estarão nos esperando exatamente as dez para seis da tarde. De carro vamos até o sul da ilha. Não precisa de tênis, pode ir com uma roupa bem leve, tranqüila. Mas não exagere na calma dessa vez Peter! Temos hora para sair e não quero me decepcionar de novo com você!

Atirando o menino de frente para parede e exercitando o bom português para exigir a velocidade que o mundo deveria girar nos próximos instantes. Minutos mais extensos, por favor! Tenta não ir com tanta pressa Seu Relógio, não quero me perder e ver que à hora já passou e não levantou! Exercitou o corpo, esticou as pernas e quanto embarcava ao Planeta, por duas horas, até voltar à Terra do Nunca para encontrar os amigos de Sininho. Uns metidos, mas não teve escolha.

- Vou até em casa, tomo um banho e já passo para te encontrar! Espere-me, por favor! Sei que não tem a sua disposição todo tempo do mundo, mas preciso muita água sobre meu corpo. Seus amigos são uns idiotas mesmo, ninguém vai reparar a minha chegada sem classe, no meio perdido do nosso atraso. No coletivo! Chegaremos atrasados e ficamos no canto! Não vejo problema algum!

Não sei se ele percebeu que seu cérebro pensou e sem querer, ele disse! Ele falou tudo que não precisava, ali no final. Batendo na bandeira do escanteio, ali no canto. Correu, vai bater, faz o mais difícil e chuta para fora! Tudo bem! Deve estar nervoso, só pode estar nervoso mesmo! Normal nessa idade! Cruzou os dedos e pediu para Deus que voltasse a fita dois minutos. Disse que mudaria duas ou três frases, ou se não, ficaria calado, balançava a cabeça, dizia um “sim” e pronto! Voava!

- Não entendi direito o que você acabou de dizer, tem como você desenhar ridiculamente suas últimas palavras? Vou sozinho cara! Vou sozinho e você volta sozinho no seu caminho, por aí! Não me importo mais com você nem um mísero pouco! Pisou na bola seu vacilão! Faça as coisas somente quando for te agradar também! Aprende! Acha que sabe, mas não sabe de nada mesmo!

A menina de verde virou as costas, olhou de canto de olho, abriu suas asas e partiu. Foi pensando em cada palavra, analisando a causa de cada uma dela que aparecerá ali, sem razão, em uma ocasião não apropriada. Esperava se divertir somente e pensava estar agradando Peter, que por sua vez, vacilou demais! Ninguém iria avisar ali que meninos são assim mesmo, atrapalhados, encantados, vislumbrados, mas também não tão bem preparados assim. Eles erram! Todos erram! É um estranho bem comum, padrão, mas se encontra em todos os tamanhos. Ninguém está imune. Tem vacina para qualquer doença. Gripe, H1N1, enfim! Mas errar é inevitável nessas condições do tempo, ainda mais ai, onde todos são crianças!

A menina continuou voando por quatro horas, não foi ver os amigos. Voou para outro lugar, foi se encontrar, sem importar com companhia naquele momento. Queria reclusão, exclusão social momentânea. Precisava pensar, passava cena atrás de cena e não encontrava um denominador comum para encaixar em todas as expressões soltas naquele momento. E ela foi até o alto da montanha, do lado das pedras, com barulhinho de água passando ali embaixo. Cuidado se estiver apertado, mas se não, é um bom lugar para ver as estrelas e encaixar cada peça.

- Maldito menino! Maldito menino! Por que ele disse aquilo? Por que ele pensa assim? Cadê o encanto? Por que sou obrigado a sentir essa sensação assim? De graça? Que sem graça coração! Que sem graça você, Senhor Coração! Mas sabe o que é pior?! Hein?! Você sabe qual a pior coisa de tudo isso? Eu gosto dele, sabia? Não tenho coragem de dizer olhando no olho, mas às vezes solto um elogio para ver se ele se toca, mas nem assim! Ainda percebi agora que fez tudo até aqui só para me divertir e não por que estava se divertindo! Maldito menino! Maldito coração, para um pouco, por favor?! Só quero ficar em silêncio...

Começava escurecer, como fazia frio, o céu começou a ficar azul escuro. Unindo a junção de estrelas brilhando, um pedaço de lua em quarenta e cinco graus e algumas nuvens para decorar! Emoldurado ficaria perfeito na sala de casa! Peter ainda não conseguiu mover um dedo do lugar. Ficou pensando por esse tempo todo. Tentando entender por que sua boca fala mais do que o necessário em horas ingratas. Se fosse a primeira vez, mas não! Seu nervosismo é constante e foge ao seu controle sua paixão. Pensa no que não se deve pensar, pensa demais. Ocupa-se somente em pensar, acaba criando, exagerando, cobrando e isso não é certo. Não leu a cartilha, mas na real... Não existe cartilha! Mas ainda há uma chance de ter um dia de glória. O que foi feito, já foi feito. Nem todo acidente é definitivo! Machucados e tropeços estarão sempre ali, te esperando. Pensa rápido garoto! Chega logo nessa conclusão, pega suas coisas e muda o mundo um pouco! Pelo menos um pouco! Dou conta de algumas coisas por aqui, faz só sua parte e não se preocupa em programar os computadores, cuido dessa parte no feriado.

Sem saber, Sininho marcou com lágrimas cristalinas cada nuvem que atravessou. Deixou um rastro e logo foi simples encontrar o caminho. Seu destino Peter já conhecia. Ela sempre pensa lá, perto do céu! Sozinha, calada! Sabia que não deveria interromper esse momento e sabia da gravidade do momento. Estava pesado o ar, carregado, completo de cinzas muito chatas! Impregnadas na roupa. Mas era só voar rápido, deixa para pensar depois. Vive, faz, já fez o que não devia. Lucrar pode entrar como uma possibilidade palpável! Quando a conta está negativa, um sorriso pode valer um milhão!

Seguiu voando e deu de encontro com o céu que já apontava o começo de uma noite, um pouco mais escuro agora. As nuvens estavam abertas e não olhavam uma para outra. Brigaram por um rapaz, mas tudo bem. Agora a lua brilhava absoluta, com meia dúzia de estrelas, parecendo pintas no corpo. Até ali, tudo lindo. O silêncio predominava e aos poucos se percebia um pulmão respirando, um coração chateado, batendo devagar. Controlado, sem dançar, cansado! Se pensamentos fizessem barulho, ali estaria uma escola de samba no meio da avenida, tocando alto para todos ouvirem ao mesmo tempo, em todos os cantos! Mas como não, Peter chegou e sentou, não disse nada.

- O que você faz aqui idiota?!

Quebrado o silêncio com dois tiros diretos. Um arrancou o braço esquerdo e o outro passou de raspão no rosto, mas não machucou.

- Nada! Só vim até aqui pensar... Acho que é público o lugar! Mas se te incomodar me avise! Não me importo em voltar, mesmo que for já!

Disse não querendo dizer, disse só para completar o que precisava ser dito ali e disse mesmo! Mas mesmo assim a violência tornou a voltar.

- Acho que você deveria sumir, deveria vazar daqui agora! Não espera que eu diga duas vezes as mesmas palavras, não é?! Só se tiver problema! Aliás! Vá embora problemático, não gosto de você perto de mim! Já te falei isso? Não preciso de você mesmo, não preciso, não preciso! Se toca e some daqui, se entoca em sua casa e só sai de lá para comer, se esconde criatura, por que você me assusta! Já sumiu?

Se soubesse que ia engolir a seco dessa forma, Peter teria molhado a garganta antes da conversa, antes de voar até ali! Foi o primeiro “Nó de Marinheiro” feito em uma garganta na história da televisão mundial! Fato inédito e recordado pelos olhos da pequena fada que conquistara ali faixa preta, mestre em todas as categorias! Mas em uma porcentagem real, a cada três palavras ditas nesse tipo de momento por uma menina, apenas uma deve ser levada em consideração. Não é machismo, mas também ficam nervosas, ainda mais assim, sob pressão! É difícil colocar todas essas informações em uma planilha e resolver logo de primeira, mas tinha que ser feito.

- Me desculpa! Só vim dizer isso! Já estou partindo. Mantenha-se bem, mantenha-se com força e só! Fique bem...

Esse era seu real interesse, não tem o que explicar, ele errou, mas por fim pensou e pensar faz bem. Partiu e antes que atingisse dois metros de distância do local, Sininho espirrou.

- Fique!

Peter duvidou, mas tinha que entender melhor.

- Mesmo?

Sininho espirrou novamente.

- Fique mesmo!






... e assim aproveitam sua juventude.


Leo Fonseca

6 de jun. de 2010

#terradonunca - Quando ando sempre tropeço

Na Terra onde habito, o tempo passa rápido
Cuida pouco e trabalha demais
Nessa Terra onde habito, é tudo tão chato
Soaria melhor, apático!

Sem cor, sem sabor e pouca dor
Estagnado, parado, calado, quase ninguém fala
Cantam por dinheiro e esquece-se de alegrar
Brigam com a vida e são cheio de rancor

Na Terra onde hábito, crianças voam
Voam e o tempo não passa
Fica ali parado, mas não estagnado
Ouço de olhos fechados a forma que essas notas soam

Peço somente que vá com cuidado
Teremos novidades pelo caminho
Coloca um sorriso no rosto e espanta esse jeito acuado
Pintei as rosas brancas de vermelho

Mas esqueci dos espinhos
Nem machucou
Pouco incomodou

Lá de cima é tanto faz
Não sabe de nada
Não sabe da nada mesmo


Mas se quiser saber

Eu tenho um segredo para te dizer




Leo Silva e Silva

#terradonunca - Primeiro Segredo da Terra do Nunca

- Eu já falei que você não sabe de nada?!

Assim gritou e girou até o alto. Sininho estava muito irritada, não agüentou continuar conversando. Já sabia que dali não sairia perdão naquele momento e resolveu voar um pouco. Para esquecer os problemas.

- Cala a boca!

Disse e armou um sorriso tão lindo, menino perdido, resolveu sentar e pensar por trinta minutos, leu alguns recados que estavam estocados em seus bolsos. Deveria pagar as contas com antecedência para tentar algum desconto. É bom quando sobra dinheiro. Tenho mais tempo para voar e manter a minha cabeça leve. Todos os pensamentos leves ao mesmo tempo! Tinha certeza já!

- Assim consigo voar mais alto que você! Consigo ir até lá em cima! Encosto na primeira nuvem que parecer um coelho e corro até o fim da Austrália. Volto pelo lado mais frio do planeta. Só para ver se consigo esfriar um pouco o meu coração!

Ela desistiu de ir tão alto e resolveu voltar para decidir o assunto pendente. Fez cara de emburrada, torceu o nariz e abriu logo o berreiro. Sem perdão em nenhuma das palavras cuspidas pelo espaço. Muitos decibéis! Acordaria um bebezinho com um grito desses.

- Eu já disse para não falar mais comigo! Eu disse! Não tem mais papo!

Mas quando terminou a frase não se agüentou e disse com um sorriso lindo:

- Cala a boca!

E foi o “cala a boca” mais bonito que o menino já viu. Até desistiu do assunto e parou ali. Tanto faz se vai ter assunto para segunda aula. A fotografia ficou estacionada na minha cabeça por segundos intermináveis. Pena não são infinitos, mas o menino balançou a cabeça e já estava em outro lugar.

- Tudo bem, você venceu Sininho, não vou discutir mais essa nossa relação. Acho que não vai dar certo! Gosto de azul e você de amarelo, usa esse verde todos os dias. Se bem que meu modelito também anda meio em baixa, mas não me ligo em tendências...

A pequena fada franziu a testa, fez três marquinhas e já começou a discutir!

- Garotos não sabem de nada mesmo! Até acha que sabe, mas tenho certeza mais do que absoluta que não sabem de nada mesmo! Eu não estava com ciúmes de você! Estou com raiva e tenho outros motivos bem mais importantes! Você não sabe de nada!

Sem conseguir manter o silêncio, Peter logo voou para cima da fada e levantou seu olho direito, deixando sua testa marcada. O sol batia bem no olho do coitado, mas mesmo assim não hesitou, levantou seu dedo indicador, do lado direito, pensou três segundos e tremeu meia dúzia de palavras mal ditas, sem querer, sem saber e já se entregou...

- Veja você garota, louca por abraço e ai fugindo pelo espaço, correndo, voando e falando mal dos outros ao pé do ouvido. Duvido que não! Não fala que é ao contrário, por que te vi resmungar ontem à noite. Tinha aquela de verde e a menina de rosa! Juro que não direcionei meu olhar para mais ninguém. Não vi motivo para duvidar e nem ruga aparecer na cabeça. Mas ouve só se quiser escutar. Abri a janela inteira quando o sol apareceu, deixei tudo iluminado e quentinho. Não me importo com o que você acha desse meu traje. Não é de gala e não muito esporte. Não tem a cor da moda também, mas nem ligo sabia? Quando fica desbotado que fica melhor, não é?!

Quando o motivo da conversa foi passear, peguei um café sem açúcar. Sinceramente, o tempo podia parar ali novamente. Sempre que termino esses breves raciocínios, percebo como sou burro quando te vejo tão perto e desperdiço o tempo. Foge pelos meus dedos e escapa mais uma vez. Tão pequena, Sininho sempre sai sem anunciar e acabo ficando preocupado. O menino guardou para si todos os seus motivos mais uma vez. Deixa estar, deixa passar a dor do corpo, quando ele estiver relaxado, ai sim, pode resolver o problema com mais calma.

- Peter! Você vai ficar ai parado mesmo? O tempo está passando, precisamos logo voltar. Logo vai anoitecer e sua mãe vai ficar preocupada. Seu pai liga duzentas vezes lá em casa te procurando quando você vem para cá. Coitado! Ele fica preocupado e você sempre se esquece de responder suas chamadas. Mas tudo bem, não quero entrar nesse assunto! Mas acho que você deveria ao menos ir mais rápido! Cada dia que passa parece-me mais lerdo! Anda comendo fora do horário? Está se exercitando? Te acho muito infantil! Já te disse isso? Já te disse que teu tamanho também não me agrada? Disse isso uma vez, se lembra? Eu não gosto desse teu cabelo também, acho que essas roupas não caem bem em você, calça estranha! Onde que comprou isso? Meu Deus!

As pedras voavam de sua boca com toda força na direção do menino, mas ele simplesmente estampou um sorriso e abaixou o volume da voz. Ela sempre faz assim! Só se via a boca abrindo e fechando, desenhando no ar as palavras. Não fez leitura labial e ficou apreensivo no conjunto. Seu nariz bem casado, muito bem acompanhado. Sempre acho que companhia boa afeta até a cor da pele! Mas o tempo estava realmente terminando e logo teria que entregar os relatórios. Ainda não preparou nada e muito menos desfez as malas!

Antes de voar para casa admirou mais uma vez, com toda atenção. Não disse mais nenhuma palavra, não acrescentaria. O que tinha que ser dito, foi dito. Conclusões definitivas pode ser uma lombada no meio da rua e sem frear quase derrapo. Sigo voando tranquilamente, em uma velocidade agradável. Admiro mais uma vez, lembro de tudo que disse e peço a Deus para sonhar todos os dias, como se fosse sempre a primeira vez.

- Tenha pensamentos leves Sininho! Estou indo em direção do meu lar, já que me esqueci de avisar meu pai que aqui estou, resolvi já retornar. Volto mais tarde quando desocupar. Queria ao contrário, mas não tem como, então faço assim..

E só isso!

Na medida do possível não vou contar os dias por uns tempos, não vou me preocupar e reduzir tudo que for peso que tiver que carregar. Não vou pensar demais em nada, uma quantidade suficiente para cada parcela. Um pouco de cada sabor e pouca pimenta para não arder o estomago. Sem pegar fogo, sem se acalmar demais para não perder muito tempo dormindo. Longe da Terra do Nunca, até a obra do banheiro terminar! Preciso supervisionar esses bombeiros que trabalham aqui em casa. Deixaram um cano estourar e foi água até o primeiro andar.

Enfim...


Te vejo na Terra do Nunca




Leo Fonseca da Silva Sauro