Menino invadiu a cozinha descalço, na ponta dos pés. Evitava qualquer tipo de som que pudesse fazer. Algum passo mal encaminhado que viesse a entregar tudo! Precisava estudar muito essa missão, pra só depois competir com a realidade.
Abrir gaveta, pegar faca, abrir armário, pegar chocolate, cortar chocolate. Esconder e fugir.
Passava novela e a costura acompanhava o casal que acabará de separar. Sugeridas emoções disfarçadas pelas maquiagens televisivas, eternizando antigos apresentadores. Sem o lucro de aproveitar uma aposentadoria. Escraviza-se a viver o discurso monótono de mentiras contadas uma atrás da outra. Prestava atenção como sempre. Ligada no botão das coletâneas oferecidas nos comerciais de TV a cabo. Repetindo as animações pra entreter telespectador.
Quando quisesse, poderia dar início à missão. Voltou do comercial e agora é a hora! Dois passos de leve, respiração controlada e o corredor virou cozinha. Seus olhos acompanharam todos os movimentos da mãe no sofá, enquanto seus membros inferiores deram conta de encaminhar os passos conforme o plano dessa missão. Estava pronto para adentrar o ponto B. Acendeu a luz. Foi até a pia e fez movimentos de quem estava a beber muita água. Enquanto a torneira fazia a função de sonorizar falsos movimentos, abria lentamente a gaveta e escolhia a faca mais afiada. Daquela que cortam tudo. Muito cuidado quando abrir pacotes com ajuda dessa aí.
Em conspiração momentânea a gaveta fez um barulho simultâneo à possível movimentação na sala. Sua mãe desligará a TV e parecia caminhar até a cozinha. Isso fez com que a possibilidade de abortar a missão se tornasse realidade, antes mesmo do segundo passo. Frustração.
O menino caiu de joelhos na cozinha e chorou muito. Gritando o horror da derrota. Levemente chutou para fora a última tentativa nos pênaltis. Desclassificou seu time e humilhou toda a torcida.
Vaias e muitas vaias. Gritos dizendo que era realmente não era capaz.
Abaixou a cabeça para dar-te de presente, erguer a sua vergonha
E a TV voltou a fazer barulho na sala. Programas de auditório e o Delegado que atirou no condenado por que ambos estavam dez anos atrasados. Descontentes, desligaram-se da moda e das tendências, mas discutiam ali, de frente a mulher que engravidou do vocalista daquela banda lá.
Jogador vestiu a camisa verde camuflada, fez uma listra preta embaixo de cada olho usando o indicador direito. Olhou agachado no vão da porta se a movimentação da área da sala permitia que a missão continuasse. Partindo do princípio que ações deveriam ser repetidas com mais calma e ênfase sonora.
Fez o truque da água novamente.
Gaveta, Faca, armário, chocolate, apoiar, cortar.
Voltar, armário. Fechar.
Beber último copo d’água. Finalizar a missão voltando para base.
Na leveza de quem não fez nada.
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Pequenas situações, algumas anotações. Devidas, exageradas, retrospectivas. Incluídas em histórias acumuladas.
Leonardo Fonseca