Daqui para frente já decorei o caminho, mesmo de olhos fechados. Depois de três curvas vem uma imensa reta. Parecerá infinita, mais de mil passos serão dados e o fim ainda vai estar por vir. Quando se acalmar e perceber que a luz já reflete sob suas pálpebras, elas começarão a tremer e gritar para serem abertas. O caminho é o mesmo que percorri por quatorze voltas, com muita atenção. Daqui para frente meu joelho vai doer um pouco mais e meu corpo pedirá cama quando o dia estiver raiando. Perdido na imensidão dos lugares que ainda não decorei, nessa imensidão tão minha e desconhecida. Dos vôos rasantes das gaivotas que vão caçando seu almoço pelo mar. Esperando a hora certa de cair e encontrar sua felicidade. O coração parece tão quente quando o relógio brinca de mudar de humor.
Voltei do colégio e não liguei primeiro para você, dei um tempo e pensei, refleti, tentando encontrar razão no ato. Desenhando o caminho que seria percorrido e definindo na imaginação os fatos. Cada beijo roubado daquela que não chamava de namorada. Escondido e depois de dizer que realmente te amava. Amei! Na ilustração que obtinha do tal sentimento. Amor com gosto doce e cheiro de tarde inteira. Amor de pensar o dia inteiro e esquecer-se da vida. Amor que nunca mais aconteceu daquela maneira, apareceu em tardes de um tempo já distante, desse recente. Amor presente. De presente eu aprendi, roubando beijos. Na sorte do mundo, meu amor roubado, menina da sala ao lado, menina de nome conhecido. O certo foi descoberto. Girava tão rápido cada acontecimento. É legal estar errado, é legal estar fazendo aquilo que ninguém imagina, é diferente! Não se deve amar, nem ao menos adorar, mas deve-se aprender utilizar com moderação, no meio termo eu sempre me resolvo, no meio termo consigo balancear mente e corpo, encontrando aos finais de semana a qualidade da vida bem vivida, corridas e saúde. Ela não entendeu, mas eu aprendi. Tive aula fora do colégio e tirei a maior nota.
Apontam armas brilhantes para a sua cabeça, pedem que levantem os dois braços. Passam a mão por todo seu corpo. Encontram fumo no seu bolso e encontram vários apelidos. Foi buscar dentro da favela e agora você sustenta vários vagabundos. A televisão chama assim, traficante, ladrão, expõe como vergonha os seus filhos, suas crias malignas, mas vieram da mesma bolsa, mesmo cordão umbilical. Mães de nomes diferentes, bairros e distância. Escondem-te. Afastados, na periferia, no lado periférico do mapa. Na geográfia é quem vive nas margens do centro, temos grandes áreas cobertas de concreto bem construído, somos urbanizados. É mais fácil tentar ganhar dinheiro em cima dos galos da classe média duelando. Escondendo sua realidade. Mão na cabeça e perguntam o que você faz, como faz e por que faz. Vira alvo fácil sua nuca e logo cai no chão. Maconheiro, sustentador de traficante. Eu que aprendi na mesma televisão que quem nasce mulçumano morre mulçumano, na cultura geral de um grande país. Habitando e percebendo as etnias que se espalham, as periferias que só são lembradas em dia enchente. Subiu água até o teto. Ensinam-te a ser desse jeito, não fazem nada para ser diferente e quando se encontra mais velho. Julgam-te! Vestidos de preto estão aqueles que consumiram de forma correta cada grão desse cereal podre. Atingindo a meta da população de pagar cada vez mais impostos. Mudar educação não é o canal, o canal é acumular futilidade na cabeça daqueles que não aprenderam a sonhar. Usufruo da mesma água e respiro do mesmo ar. Por então sou tão igual.
Entre os barracos consigo encontrar uma luz, a lua brilha bonita do alto aqui do morro. Três ou quatro crianças correndo e a vida segue ao seu objetivo: Ser vivida! Cumprir com as datas, abraçando seus pais e agradecendo a Deus essa passagem. Encontro no agora o momento certo para pisar em um próximo degrau. Esticar as pernas e sentir o crescimento. Uma escalada que não tem fim e para a próxima rocha são necessários vários outros cálculos. Pensar pouco nunca foi à solução e pensar quase tudo, ainda te falta um pouco. Aos quinze me chamei de velho e aos vinte três me vejo uma criança tropeçando pela casa. Aprendendo a andar, aprendendo a falar, encontrando a necessidade em si mesmo de sempre mudar. Não sei ao certo se cifras serão acumuladas, quantas e como serão. Tenho para onde apontar e isso já me faz muito bem agradecido por essa chance.
Uma vida uma chance.
Leonardo Fonseca
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