8 de set. de 2010

#PequenasHistórias - Temaki.


- Seis e meia, mãe?! Seis e meia é sacanagem! Liga a TV! Vê e me fala que dia que é hoje?!



- Tem café e pão fresco! Bolo de fubá! Suco de laranja e manteiga.



Raiou o dia cantarolando e sua voz enfeitava a casa da cozinha até o banheiro dos fundos. A Rose não trabalha de domingo, então só poder minha mãe!



- Mas eu posso dormir mais meia hora? Só mais meia hora?!



- Te acordo as oito Meu amor!



Foi só fechar os olhos que já comecei a sonhar. Foi de supetão! No primeiro capítulo tive um sonho normal, básico. Beijei quem não me ama mais, mas é normal sonhar com ela, o que posso fazer? Quase levantei, mas na terceira respirada o sono ficou empolgante.

...



Uma terra onde todos colaboram. Duas casas e um jardim bem verde. Parecia uma fazenda, mas não havia animais por ali, a não ser um cachorro de pelo malhado e uma família de gatos. Cinza, marrom, um preto já meio acabado. Banheiros coloridos, paredes verdes. Na cozinha um fogão a lenha pintado de azul. Uma cozinheira daquelas bem gordas. Cozinheira precisa ser gorda! Folhando os classificados eu achei uma vaga de emprego onde era necessário ter peso. Entender da própria comida, não é?!



Logo na entrada um aviso, imprimido dizia:



- Vá com calma!



- Aproveite seus passos!



...aqui isso é o suficiente



Ao finalizar a leitura do aviso, pessoas surgiram pela casa. Vindas dos quartos. Todos de uma vez, sessenta e poucos. Andavam todos devagar. Riam muito, de qualquer coisa, e meu deus, como é bom perceber isso. Tudo é motivo de piada e nunca é de mau gosto. Meninas cantavam. Tinha tanto espaço ali, que lugar para gastar energia achava-se aos montes. Ir ali, já era longe. Da pra ir correndo, mas é proibido!



Todos se pareciam. Seus olhos! Quando me perceberam, veio um na minha direção. Cheirava bem, me pegou com um braço e juntou meu peito com o dele. Com sua mão esquerda me agarrou, puxando pelas costas. Tombou a cabeça no meu ombro e apertou. A mão que estava atrás deslizou sozinha duas vezes. Soltou-me! Deslizando os dedos do meu cotovelo até a ponta da minha mão. Segurou as duas com força. Quando se conectaram, raios azuis de energias boas passavam de lado um para o outro.



O ar ficou mais leve. Fui solto em dois minutos, mas foi só esse abraço acabar que todos começaram a me abraçar em ordem aleatória e todos tinham poder nas mãos. Alguns raios eram de outros tons, mas todos faziam meu corpo parecer uma pena.



Serviram-me um banquete! A cozinheira gorda perguntou meu prato predileto, falei. Em dois segundos a mesa já estava posta. Alface americana, arroz branco, um grão mais amado que o outro. Tomates frescos, gelados. Cubos de queijo, cebola e molho. Decorei a paisagem no fundo do meu prato e sobrevoei o Pacífico Norte com o garfo. Fui até o Havaí. Aproveitei cada viagem até a minha boca. Despejava e fazia passear cada grão em todos os espaços possíveis antes de engolir. Preste atenção na forma, agradeça, respeite. Mastigue com calma.



Alguns após a refeição foram esticar seus corpos em redes espalhadas. Atrás da casa da direita. Grande parte verde e uma mangueira enorme, no mínimo cento e cinquenta anos. Gorda, cheia de frutos. Me senti tão em casa que percebi que meu pai estava colhendo mangas. Dificilmente sonho com parentes. Descalço na grama, só acenou para mim. Caminhei até atrás da árvore. Percebi um banco e uma senhora sentada. Cantando.



- Brinco aqui desde criança! Costumo apreciar a paisagem deste ângulo da vida. Quarenta e cinco graus de inclinação do olhar. Repara ali! Consigo ver que moramos realmente um planeta redondo que gira. Ele não para de girar. Adianta cada ponteiro que o ser humano inventou.



A senhora se parecia muito comigo, quando a via falando me ouvia. Sua língua pegava no fundo da boca nas palavras com muitas letras “S”. E meu ouvido parecia tapado, meu coração que escutava, percebia e anotava.



- Senta aqui! Vem fazer o tempo parar!



- Mas como se faz isso?



Duvidei mais do que em Doende de Papai Noel.



- Naquele que só vai para frente, é parando que se fica mais um pouco. Quando der passos, coloque primeiro a parte de trás do pé, depois à frente. Deixa o seu sapato contornar direito pelo chão. Puxa o ar pelo nariz e solta pela boca, lentamente. Ouve o baixo, ouve a guitarra, o tom do vocalista. Capítulo vinte do “Poesias que rimam o seu amor”. Percebe que o “A” existe e que o “B” é fundamental. Cai de paixão oitenta vezes por dia.



- mas como posso?



Impossível ter amor o tempo todo! Impossível não se preocupar! Parecia loucura.



- Ame respirar, ame estar vivo, é para isso que venceu o sorteio entre milhares de espermatozóides. Quarenta e seis cromossomos não estão formando seu nome e sobrenome à toa. Justifica o trabalho da natureza. Seu presente vai virar passado e o que você vai contar? Que odiava lugares lotados?! Que tinha várias ressacas aos finais de semana e que um chefe chato falou na sua orelha durante vinte e quatro anos?! Foi assim? Prefere?



Abri um sorriso! Melhor forma de responder.



- Se importe menos e abrace mais. Devolva em dobro! Ajude. Colabore. Evite. Segunda da semana que vem, fará parte de um tempo que ainda desconhece. Preste atenção no agora. Cinco dias vividos são cinco dias evoluídos. Foram cinco momentos contínuos que somam pequenas novas experiências. É progressivo. Um caminho só. Se preocupe menos. Tira o peso das costas...



Depois da última palavra o céu começou a escurecer. Ventava muito também. Em instantes tudo estava azul escuro, com detalhes pretos e restos de nuvens, cinzas, quase prateadas, refletindo a luz da lua. Exatamente quatrocentas e vinte mil estrelas, no que deu para contar. Dava para escolher as Três Marias no Leste, oeste, sul e até para sudoeste. Reparei e a senhora sumiu.



...



Ajeitei-me na grama e agradeci. Que fique para sempre! São fotos mentais que nunca se apagarão, do carinho que nunca me faltará. Paz, amor, harmonia...



























Barulho na porta









































- Filho! São oito e meia, vem aproveitar!






Arima Tatsuo




Um comentário:

Adriana Alves disse...

achei legal, original, bem escrito, delirou, bom !!!