- É festa de rock seu imbecil! Tira essa camisa! Tira essa camisa! As meninas vão te achar um idiota se for vestido assim! Já não tem facilidade nenhuma, se dificultar com sua feiúra! Vai morrer virgem!
- Primeiro que não é uma festa! Imbecil! Segundo! Anota! Segundo! Sou mais velho aqui e você precisa aprender a me respeitar desde já! Pirralho!
No mês de junho costuma-se fazer bastante frio pelas manhãs. Aconselha-se que todos protejam seus lábios, pois podem rachar. Vista tocas que aqueçam suas idéias e escondam suas orelhas do tempo. Com o tempo acostuma-se com a temperatura local, mas não confunda sua mente. Está frio e no frio é melhor proteger-se. As pessoas ficam ruins, escondidas atrás dos seus muros de lã. Não sabe o que pensa a pessoa que senta em sua frente. Estar sempre preparado para um tiro não é a melhor forma de se viver, mas como ensina os escoteiros, é necessário estar sempre alerta.
Em tempos de crise tudo é problema e qualquer conseqüência só piora a situação. Um olhar torto para um policial pode gerar um tapa na cara. Uma palavra mal dita, um maldito que dispara sem perguntar o nome de sua vitima. Sai correndo e esconde seu rosto no frio.
Escondam-se jovens!
Eric acabara de completar dezoito anos e tentara ainda entender a diferença do mundo antes da maior idade com sua infância que se fazia presente de todas as formas. Tudo era muito doce ainda, até mesmo sua violência, sua rebeldia ainda cheirava a leite. Inocente! Brigava por obrigação, assim o foi ensinado desde sempre. Cresceu com raiva, mas ainda não sentiu na pele a verdadeira razão. Aprendeu em casa com seu irmão mais velho. Pedro era alto e falava bem em público. Sempre tirava boas notas na faculdade. Líder nato! Sua segurança o levava a ter admiradores. Era firme e decisivo. Não tinha medo.
Pedro viu seu pai sumir quando estava entrando no curso superior. Seu pai era professor e a sua Sociologia o fez sumir. Sumiu! Sua mãe mentiu por anos, dizendo que fora viajar e que logo voltaria, mas o logo nunca existiu. Pedro quando descobriu a sobriedade dos fatos, ficou com raiva. Vestiu o verde amarelo antes da Copa de Setenta e decidiu que não ficaria assim!
Juntou amigos e armou-se...
- Ei! Pedro não parece um idiota com aquela camisa?!
- Eric! Em silêncio! Por favor!
Eric obedeceu! Ele sempre obedece na hora certa!
- Amigos! Mais três essa semana e não foi sem querer mais uma vez. Estão falando que tiraram férias, mas ainda não é verão para ir para praia. Ainda morro de medo do que está por vir. Morro de medo por falar, por existir! Amanhã, por achar, pode ser eu que venha a sumir e não trarei palavras para acalmar ou acabar com essa situação. De uma vez por todas! De todas às vezes! No país que vivo e amo! No país verde a amarelo o vermelho está prevalecendo!
Pedro é nome de santo. Apostolo! Mas acho que não era romano, mas os católicos gostam da ligação com a Itália que faz essa religião. E de lá que veio a moda Fascista naquela época que um homem de bigode, ridículo, erguia suas bandeiras vermelhas com uma suástica tosca no centro. E como no Brasil tudo acontece depois, a moda só veio por agora e está se intensificando nesse ano de mil novecentos e sessenta e oito.
Adolescentes e pré-adultos sumiam por ter opiniões demais. Professores sumiam por ensinar demais. Políticos tiraram férias e artistas precisaram calar suas canções por um tempo. Sem praia e maré boa para o surfe. Pedro não era santo e muito menos Jesus.
- Sou irmão daquele ali que está falando! Meu nome é Eric, e o seu?
- Margot, mas não estou afim de papo, preste atenção nele!
Eric era a influência da Coca- Cola e do ritmo vindo recentemente dos EUA. Rock N’ Roll, chicletes e vestidos de bolinha. Tinha energia saindo pelas ventas por todo o tempo. Não desligava. Pouco prestava atenção no que diziam, mas era sempre fiel ao seu irmão. Como os irmãos mais novos fazem com os mais velhos, porém seu respeito ia além. Pedro era seu pai. Pedro era seu objetivo. Pedro era seu maior ídolo! Viu seu pai partir e só seu irmão que conseguira cessar suas lágrimas.
Entendia de Fidel, já lera Marx todas as vezes que foi necessário. Adam Smith! Che e sua jornada. Raul e os desbravadores. Cuba! China! Mao Tse! A cor vermelha e punhos armados. Gritarão revolução quando a hora realmente chegar! Entendia do problema que era estar vivo e pensar! Existir é um problema para aqueles que pensam demais.
- Dizem as más línguas que assinarão o tal decreto quando o verão estiver esquentando as nossas terras tupiniquins! Nesse verão de sessenta e oito, todos os seus crimes passarão em branco. Como se não tivessem manchado de vermelho a histórias de pessoas como EU, Minha mãe, Meu irmão! Meu pai que não manda mais recados! Onde ele foi parar? Por que não aparece mais para me dar um abraço? Onde foram parar os nossos pais, meus amigos? No verão estarão todos pulando em suas piscinas e comemorando a ditadura! Comemorarão o nosso silêncio! Nossas bocas fechadas por suas balas! Pela tortura! Pela mastigação de nossas mentes! Ficaremos calados?!
- Não!
O grito foi único! Derradeiro! Unido! Sincronizado!
...
- Margot? Você é do meu colégio, não é?! Está no último ano?!
- Sim Eric! Sou do seu colégio e estou no mesmo ano que você, mas me desculpe! Não vim até aqui para fazer amizades ou encontrar meus colegas de curso! Sem amizades! Sem amigos! Ok?!
...
- AMIGOS!
Iniciou Pedro, para nunca antes finalizar...
Amizade! Amigo! Fraternidade! Lealdade! Fidelidade! Humanidade! Só quando seu coração bate tranquilamente, pode perceber que realmente o amor existe. Realmente sentir o calor de um abraço e a energia que um corpo passa para o outro. Temos poucas certezas nessa vida, mas uma única é que somos seres humanos! Os que cobram!
Os que dançam. Os que trabalham em bancos, os que trabalham nas vendas. Açougue, estoque, biblioteca e resumindo os capítulos da novela. Somos todos da mesma raça e quando habitamos a mesma região, falamos o mesmo idioma! Não há distância entre Eu e Você. Somos parecidos. Somos idênticos! São os mesmos documentos exigidos e o Comprovante de Residência com bairros quase iguais. Os valores mudam, mas são muito parecidos!
Eles invadiram e não queriam fazer amigos...
“Amigos” foi a última palavra dita antes de começarem os gritos!
Alguns pularam a janela e esqueceram que estavam no primeiro andar. Machucaram suas pernas e não conseguiram correr. Outros foram para a escada de emergência, mas logo foram rendidos! Mãos na cabeça e corpos deitados no chão. Mas entre todas as moedas, uma valia mais e era essa que procuravam.
Eric agarrara Margot! Esconderam-se em um armário antigo de notícias. Jornais! O Brasil havia ganhado a Copa há dez anos! Didi brilhara! Mas ali ninguém os encontraria, estava escuro, em silêncio! Ninguém encontraria!
Covardia?! Medo?
...
Silêncio!
Um disparo!
Silêncio!
Segundo disparo!
Silêncio!
...
Amigos! Não foram amigos que entraram para reunião! Estavam vestidos com bandeiras brasileiras estampadas em seus peitos cariocas. Não foi a fim de samba! Não foi a fim de rock n’ roll! Não foi! Não fizeram barulho para subir! Não fizeram barulho para entrar! E entraram! Assustou quem tinha que assustar e viram de frente aquele que ficou! Ficou repleto de medo, mas não podia correr! Não deveria correr, pois então, ficou! Festejou a alegria de seus visitantes que logo partiram. Deixaram-no com duas marcas profundas e partiram.
- Pedro?!
- Bem que você disse que minha camisa não combinaria com essa festa de rock!
- Não!
- Ei menina! Cuida bem desse menino por mim?
- Não!
...
Silêncio!
Os homens maus fazem maldades! Homens de bem choram e agradecem! Um instante pode ser o último instante e depois desse, não tem mais como reclamar da vida!
Pois ela se vai...
...
Margot abraçou Eric e chorou!
... e assim começa uma revolução
Leonardo Fonseca
- Primeiro que não é uma festa! Imbecil! Segundo! Anota! Segundo! Sou mais velho aqui e você precisa aprender a me respeitar desde já! Pirralho!
No mês de junho costuma-se fazer bastante frio pelas manhãs. Aconselha-se que todos protejam seus lábios, pois podem rachar. Vista tocas que aqueçam suas idéias e escondam suas orelhas do tempo. Com o tempo acostuma-se com a temperatura local, mas não confunda sua mente. Está frio e no frio é melhor proteger-se. As pessoas ficam ruins, escondidas atrás dos seus muros de lã. Não sabe o que pensa a pessoa que senta em sua frente. Estar sempre preparado para um tiro não é a melhor forma de se viver, mas como ensina os escoteiros, é necessário estar sempre alerta.
Em tempos de crise tudo é problema e qualquer conseqüência só piora a situação. Um olhar torto para um policial pode gerar um tapa na cara. Uma palavra mal dita, um maldito que dispara sem perguntar o nome de sua vitima. Sai correndo e esconde seu rosto no frio.
Escondam-se jovens!
Eric acabara de completar dezoito anos e tentara ainda entender a diferença do mundo antes da maior idade com sua infância que se fazia presente de todas as formas. Tudo era muito doce ainda, até mesmo sua violência, sua rebeldia ainda cheirava a leite. Inocente! Brigava por obrigação, assim o foi ensinado desde sempre. Cresceu com raiva, mas ainda não sentiu na pele a verdadeira razão. Aprendeu em casa com seu irmão mais velho. Pedro era alto e falava bem em público. Sempre tirava boas notas na faculdade. Líder nato! Sua segurança o levava a ter admiradores. Era firme e decisivo. Não tinha medo.
Pedro viu seu pai sumir quando estava entrando no curso superior. Seu pai era professor e a sua Sociologia o fez sumir. Sumiu! Sua mãe mentiu por anos, dizendo que fora viajar e que logo voltaria, mas o logo nunca existiu. Pedro quando descobriu a sobriedade dos fatos, ficou com raiva. Vestiu o verde amarelo antes da Copa de Setenta e decidiu que não ficaria assim!
Juntou amigos e armou-se...
- Ei! Pedro não parece um idiota com aquela camisa?!
- Eric! Em silêncio! Por favor!
Eric obedeceu! Ele sempre obedece na hora certa!
- Amigos! Mais três essa semana e não foi sem querer mais uma vez. Estão falando que tiraram férias, mas ainda não é verão para ir para praia. Ainda morro de medo do que está por vir. Morro de medo por falar, por existir! Amanhã, por achar, pode ser eu que venha a sumir e não trarei palavras para acalmar ou acabar com essa situação. De uma vez por todas! De todas às vezes! No país que vivo e amo! No país verde a amarelo o vermelho está prevalecendo!
Pedro é nome de santo. Apostolo! Mas acho que não era romano, mas os católicos gostam da ligação com a Itália que faz essa religião. E de lá que veio a moda Fascista naquela época que um homem de bigode, ridículo, erguia suas bandeiras vermelhas com uma suástica tosca no centro. E como no Brasil tudo acontece depois, a moda só veio por agora e está se intensificando nesse ano de mil novecentos e sessenta e oito.
Adolescentes e pré-adultos sumiam por ter opiniões demais. Professores sumiam por ensinar demais. Políticos tiraram férias e artistas precisaram calar suas canções por um tempo. Sem praia e maré boa para o surfe. Pedro não era santo e muito menos Jesus.
- Sou irmão daquele ali que está falando! Meu nome é Eric, e o seu?
- Margot, mas não estou afim de papo, preste atenção nele!
Eric era a influência da Coca- Cola e do ritmo vindo recentemente dos EUA. Rock N’ Roll, chicletes e vestidos de bolinha. Tinha energia saindo pelas ventas por todo o tempo. Não desligava. Pouco prestava atenção no que diziam, mas era sempre fiel ao seu irmão. Como os irmãos mais novos fazem com os mais velhos, porém seu respeito ia além. Pedro era seu pai. Pedro era seu objetivo. Pedro era seu maior ídolo! Viu seu pai partir e só seu irmão que conseguira cessar suas lágrimas.
Entendia de Fidel, já lera Marx todas as vezes que foi necessário. Adam Smith! Che e sua jornada. Raul e os desbravadores. Cuba! China! Mao Tse! A cor vermelha e punhos armados. Gritarão revolução quando a hora realmente chegar! Entendia do problema que era estar vivo e pensar! Existir é um problema para aqueles que pensam demais.
- Dizem as más línguas que assinarão o tal decreto quando o verão estiver esquentando as nossas terras tupiniquins! Nesse verão de sessenta e oito, todos os seus crimes passarão em branco. Como se não tivessem manchado de vermelho a histórias de pessoas como EU, Minha mãe, Meu irmão! Meu pai que não manda mais recados! Onde ele foi parar? Por que não aparece mais para me dar um abraço? Onde foram parar os nossos pais, meus amigos? No verão estarão todos pulando em suas piscinas e comemorando a ditadura! Comemorarão o nosso silêncio! Nossas bocas fechadas por suas balas! Pela tortura! Pela mastigação de nossas mentes! Ficaremos calados?!
- Não!
O grito foi único! Derradeiro! Unido! Sincronizado!
...
- Margot? Você é do meu colégio, não é?! Está no último ano?!
- Sim Eric! Sou do seu colégio e estou no mesmo ano que você, mas me desculpe! Não vim até aqui para fazer amizades ou encontrar meus colegas de curso! Sem amizades! Sem amigos! Ok?!
...
- AMIGOS!
Iniciou Pedro, para nunca antes finalizar...
Amizade! Amigo! Fraternidade! Lealdade! Fidelidade! Humanidade! Só quando seu coração bate tranquilamente, pode perceber que realmente o amor existe. Realmente sentir o calor de um abraço e a energia que um corpo passa para o outro. Temos poucas certezas nessa vida, mas uma única é que somos seres humanos! Os que cobram!
Os que dançam. Os que trabalham em bancos, os que trabalham nas vendas. Açougue, estoque, biblioteca e resumindo os capítulos da novela. Somos todos da mesma raça e quando habitamos a mesma região, falamos o mesmo idioma! Não há distância entre Eu e Você. Somos parecidos. Somos idênticos! São os mesmos documentos exigidos e o Comprovante de Residência com bairros quase iguais. Os valores mudam, mas são muito parecidos!
Eles invadiram e não queriam fazer amigos...
“Amigos” foi a última palavra dita antes de começarem os gritos!
Alguns pularam a janela e esqueceram que estavam no primeiro andar. Machucaram suas pernas e não conseguiram correr. Outros foram para a escada de emergência, mas logo foram rendidos! Mãos na cabeça e corpos deitados no chão. Mas entre todas as moedas, uma valia mais e era essa que procuravam.
Eric agarrara Margot! Esconderam-se em um armário antigo de notícias. Jornais! O Brasil havia ganhado a Copa há dez anos! Didi brilhara! Mas ali ninguém os encontraria, estava escuro, em silêncio! Ninguém encontraria!
Covardia?! Medo?
...
Silêncio!
Um disparo!
Silêncio!
Segundo disparo!
Silêncio!
...
Amigos! Não foram amigos que entraram para reunião! Estavam vestidos com bandeiras brasileiras estampadas em seus peitos cariocas. Não foi a fim de samba! Não foi a fim de rock n’ roll! Não foi! Não fizeram barulho para subir! Não fizeram barulho para entrar! E entraram! Assustou quem tinha que assustar e viram de frente aquele que ficou! Ficou repleto de medo, mas não podia correr! Não deveria correr, pois então, ficou! Festejou a alegria de seus visitantes que logo partiram. Deixaram-no com duas marcas profundas e partiram.
- Pedro?!
- Bem que você disse que minha camisa não combinaria com essa festa de rock!
- Não!
- Ei menina! Cuida bem desse menino por mim?
- Não!
...
Silêncio!
Os homens maus fazem maldades! Homens de bem choram e agradecem! Um instante pode ser o último instante e depois desse, não tem mais como reclamar da vida!
Pois ela se vai...
...
Margot abraçou Eric e chorou!
... e assim começa uma revolução
Leonardo Fonseca
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