Curta @ 03-11-93 from Leo Fonseca on Vimeo.
- 4:20 pm
Repetição daquilo que passou, com a mesma chuva. Com o mesmo volume de água que banhava os tetos das casas, das pessoas que passam lá fora e levam resquícios para dentro. Mão sobre a vitrola, atendendo aos ouvidos com uma canção. Densa. Grossa, explicada em um giro certeiro, pontaria e bunda no sofá.
Estende a mão e busca notícias para passar o tempo. Troca de página, lê. Caminha com os olhos da direita para esquerda. Trocando de lado. É desinteressante ler o que já foi. Todos acham.
Que tédio.
Jornal cai de testa sobre o sofá velho enquanto a menina vai à cozinha.
- 4:53 pm
Café para dois, italiano e forte. Três colheres gordas de café. Discutir o foco, medir a luz. Comentar cada detalhe de uma vez só. Para distrair. Ruídos de café em processo de ebulição. Começando a borbulhar, já pode servir. Um tanto igual para dois. Esquerda, direita. Senta e adoça. Deixa feliz coração despercebido. Compensação em doses de açúcar. Redundância numérica. Leva até a boca e aprova. Sorriso enfeitado. Meio teimoso. Levanta e vai até o vizinho que ainda não chegou, do outro lado da mesa. Senta e leva um amargo até a boca. Dose grande, sem doce.
Quente, no fundo da garganta. Cuspido e atirado com força. Foi caco para todos os lados. Que se foda.
Foda-se!
Foda-se!
Arrebenta a chícara porra!
- 5:46 pm
Quando a televisão realmente anunciar algo importante, já vou ter fungos em minha lápide. Escrito “Passou/Foi”. Muda de canal e vendem Jesus. Do mesmo jeito que se vendem jóias. O silicone que cresce o peito. Do apresentador que já foi também. Mas a maquiagem eterniza. Plástica. Modificação e um cigarro. Canais fora do ar.
Melhor desligar.
Me faltou dinheiro mais uma vez e me sobraram só esses restos de roupas iguais. Na Segunda uso a de Sexta Passada. Passado, usei na Quinta essa cueca. Cinco repetições é o mais real que se pode chegar aqui com esse armário. Combina e tenta alguma coisa. Duvido muito. Enfeita-se de preto. Quem sabe assim?
- que batom horrível. Tosca!
- 6:66 pm
Porra, é foda. Não tem nada para fazer. Depois de todos os canais, opções. O que me resta é bailar a falta de assunto. A mesmice. Essa é a vida ,Cara. Desculpa te avisar assim de supetão, mas é mais ou menos assim que acontece. Agora é tua glória. Gira bonito. Vibra e aplaude. Você aí. Dentro do estádio, fazendo sexo. Roubando banco. Esticando um. É tudo a mesma coisa. Mesmo ar. Mesmo um pouco do tudo, que é sempre tudo igual. Derrapa e de lerdeza, cai uma vez.
Prepara a “Morte do Cisne”, de preto e começa a girar. Seu corpo desanda, escorrega e bate. Cansa das datas. Dos dias. Viver e não existir. Viver para respirar um dia que, literalmente, tanto faz. A vida é feita de muitos assim. Arranca dia atrás de dia. Derrapa mais uma vez.
Já sem dias para contar. Desligar o relógio é a melhor solução. No grito sofrido daquela que cansa. Agora cai morta e descansa.
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Arima Tatsuo
Leonardo Fonseca
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