Fez verão como tantos, desperdiçado como
outros. Tédio amaldiçoa qualquer boa vontade dos tolos olhando para o lado
oposto, tanto seria positivo descrever passos dados desse lado, ilustrando
possibilidades, gerando novidades, mas depende da grandiosidade do coração e a
capacidade dos seus sentimentos. Pois é, desejamos incrivelmente caminhos com
menos curvas e dias menos tenebrosos, tão qual queremos riquezas sem antes ter
se concentrado em livros bons, ditando ordens interessantes, como dietas e
regras que denigrem o seu passado, moldando-lhe futuro promissor. Aprender
andar sem cair, vitória sem derrota, conseguir atingir sem ao menos ter
tentado. Vida sem arranhões soa tranqüilo aos ouvidos, nunca tropeçar, desviar
na curva e compreender o torto e desconhecer a sensação de estar perdido. A
trilha possui pedras enormes, arbustos, feridas e vontade voltar ao inicio,
desistir, esquecer do sonho, mas seria tão pouco digno contar isso os netos no
almoço de família.
Contando carneirinhos nessa perfeição,
parece que o caminho foi simples, mas aprendi tanto com os passos dados, um de
cada vez. Aprendi com a perda, abstraindo, adentrando mar de novidade sem
segurar o freio de mão. Respirar pausadamente para sentir o pulmão trabalhar.
Chorar com a porta fechada, segurando a tristeza e a saudade só para mim.
Percebendo a quilometragem do Planeta Terra enquanto os pneus do ônibus
queimavam pelo chão, levando garoto cheio de sonho para viver. Me olhei tantas
vezes no espelho, para decorar cada momento e cada fotografia mental que
pudesse ter só para mim, olhando de fora seria loucura, mas compreendo meu
coração e sua ansiedade, não devo mais denominar-me “garoto”, a barba tomou
conta em menos de dois dias depois da lamina, lagrima seca antes mesmo de cair
e o socorro, esse já esqueci tem tempo.
Mãe, ao quinto verão lembraram de refazer
saudade, sobrepujaram tantas farsas para administrar a realidade, criaram
escudos. Sentindo calor, reflito, deixando de contestar que sinto tanta falta
de cada bronca que poderia me dar quando a cabeça resolve abaixar sozinha,
chega o medo e esse mundo que gosta de gritar, de andar acelerado e de sempre
estar atrasado. Temperei os dias, sambando alternado, solicitando ajuda de
todos amigos que podia abraçar e os abracei. Com tanto amor, até as dores no
joelho eu relevei. Do corpo a gente cuida, menos sal e condutas corretas,
grafitando conhecimentos nos muros antes vazios, tal qual, sentimentos batendo
em todos os cantos, por não saberem seu nome completo e a devida função social
em nossas vidas. Sábios diriam ser amadurecimento, outros adeptos chamariam de
fluxo normal da vida humana.
Ouço as tias perguntarem quão triste fiquei
e se houve apatia nos dias que se foram. Sentir é algo físico, imutável, dor de
soco, dor de pancada. Perder é sentir, da maneira mais predatória ao coração e é
difícil assumir que perder não dói, mas como arranhões no joelho, necessários aos que aprendem
andar, os meus machucados me ensinaram tantas coisas. Me fizeram descobrir
vocabulário, cortes, cores e traços, esses que pareciam estar guardados no
fundo do mar, nadei até lá, passei por tormentas e tubarões. Furacões tem aos
montes, mas responder com tristeza, seria falso, pois agradeço a chance de
estar aqui, relembrando passos, com todos os membros do meu corpo intactos, sem
falhar a memória e listar coisas das quais, nunca imaginei poder viver nessa
vida.
Daqui onde estou vejo o mundo enorme onde
vivemos, crianças brincando, crescendo. Casais se amando, brigando e
aprendendo. Caminhos perdidos, retas se curvando e a magnitude das mudanças
improvisadas, formando os rumos do por vir, reclamar é tão fácil, sentar e ver
tudo girar, sem colocar as mãos na massa, mas surge como opção inaceitável no
contexto. Novamente, pois é, creio que voltar é impossível, esperar gera tédio
e por esse mal eu passo distante, assopro pensamentos pesados e levo a vida de
chinelo, caminhando do meu jeito e fazendo o mapa da minha história com
passos curtos, porém bem dados.
Sinto a falta do cheiro da comida pela
casa, das conversas, dicas e piadas sujas na hora errada, mas com os olhos
fechados percebo que está próxima, segurando minha mão, acalmando tudo dentro
de mim. Assoprando meus arranhões e me guiando, me fazendo uma pessoa melhor.
Subiu, virou estrela, brilhou tanto
Pura admiração
É muito bom ter você ao meu lado.
Mãe.
Leo Fonseca
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