7 de jan. de 2013

_13'_ Ao quinto andar.


Fez verão como tantos, desperdiçado como outros. Tédio amaldiçoa qualquer boa vontade dos tolos olhando para o lado oposto, tanto seria positivo descrever passos dados desse lado, ilustrando possibilidades, gerando novidades, mas depende da grandiosidade do coração e a capacidade dos seus sentimentos. Pois é, desejamos incrivelmente caminhos com menos curvas e dias menos tenebrosos, tão qual queremos riquezas sem antes ter se concentrado em livros bons, ditando ordens interessantes, como dietas e regras que denigrem o seu passado, moldando-lhe futuro promissor. Aprender andar sem cair, vitória sem derrota, conseguir atingir sem ao menos ter tentado. Vida sem arranhões soa tranqüilo aos ouvidos, nunca tropeçar, desviar na curva e compreender o torto e desconhecer a sensação de estar perdido. A trilha possui pedras enormes, arbustos, feridas e vontade voltar ao inicio, desistir, esquecer do sonho, mas seria tão pouco digno contar isso os netos no almoço de família.

Contando carneirinhos nessa perfeição, parece que o caminho foi simples, mas aprendi tanto com os passos dados, um de cada vez. Aprendi com a perda, abstraindo, adentrando mar de novidade sem segurar o freio de mão. Respirar pausadamente para sentir o pulmão trabalhar. Chorar com a porta fechada, segurando a tristeza e a saudade só para mim. Percebendo a quilometragem do Planeta Terra enquanto os pneus do ônibus queimavam pelo chão, levando garoto cheio de sonho para viver. Me olhei tantas vezes no espelho, para decorar cada momento e cada fotografia mental que pudesse ter só para mim, olhando de fora seria loucura, mas compreendo meu coração e sua ansiedade, não devo mais denominar-me “garoto”, a barba tomou conta em menos de dois dias depois da lamina, lagrima seca antes mesmo de cair e o socorro, esse já esqueci tem tempo.

Mãe, ao quinto verão lembraram de refazer saudade, sobrepujaram tantas farsas para administrar a realidade, criaram escudos. Sentindo calor, reflito, deixando de contestar que sinto tanta falta de cada bronca que poderia me dar quando a cabeça resolve abaixar sozinha, chega o medo e esse mundo que gosta de gritar, de andar acelerado e de sempre estar atrasado. Temperei os dias, sambando alternado, solicitando ajuda de todos amigos que podia abraçar e os abracei. Com tanto amor, até as dores no joelho eu relevei. Do corpo a gente cuida, menos sal e condutas corretas, grafitando conhecimentos nos muros antes vazios, tal qual, sentimentos batendo em todos os cantos, por não saberem seu nome completo e a devida função social em nossas vidas. Sábios diriam ser amadurecimento, outros adeptos chamariam de fluxo normal da vida humana.

Ouço as tias perguntarem quão triste fiquei e se houve apatia nos dias que se foram. Sentir é algo físico, imutável, dor de soco, dor de pancada. Perder é sentir, da maneira mais predatória ao coração e é difícil assumir que perder não dói, mas como arranhões no  joelho, necessários aos que aprendem andar, os meus machucados me ensinaram tantas coisas. Me fizeram descobrir vocabulário, cortes, cores e traços, esses que pareciam estar guardados no fundo do mar, nadei até lá, passei por tormentas e tubarões. Furacões tem aos montes, mas responder com tristeza, seria falso, pois agradeço a chance de estar aqui, relembrando passos, com todos os membros do meu corpo intactos, sem falhar a memória e listar coisas das quais, nunca imaginei poder viver nessa vida.

Daqui onde estou vejo o mundo enorme onde vivemos, crianças brincando, crescendo. Casais se amando, brigando e aprendendo. Caminhos perdidos, retas se curvando e a magnitude das mudanças improvisadas, formando os rumos do por vir, reclamar é tão fácil, sentar e ver tudo girar, sem colocar as mãos na massa, mas surge como opção inaceitável no contexto. Novamente, pois é, creio que voltar é impossível, esperar gera tédio e por esse mal eu passo distante, assopro pensamentos pesados e levo a vida de chinelo, caminhando do meu jeito e  fazendo o mapa da minha história com passos curtos, porém bem dados.

Sinto a falta do cheiro da comida pela casa, das conversas, dicas e piadas sujas na hora errada, mas com os olhos fechados percebo que está próxima, segurando minha mão, acalmando tudo dentro de mim. Assoprando meus arranhões e me guiando, me fazendo uma pessoa melhor.



Subiu, virou estrela, brilhou tanto
Pura admiração

É muito bom ter você ao meu lado.


Mãe.


Leo Fonseca

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