12 de jan. de 2013

_13'_ Sobre Festas e Refrescos.


Se morrer de vergonha antes da primeira valsa virar motivo de piada, amanhã vão todos dizer nos corredores do colégio, mas minhas pernas estão tão pesadas que não consigo me mover. Preparei meu smoking, combinando com as meias e meu sapato, arrumei o cabelo e passei perfume.

Pra que?

Pra ficar sentado aqui, morrendo de medo! Para ver as pessoas me assistirem parado, incapacitado de caminhar até o outro lado do salão!

Caminhar?!

Caminhar parece simples! Muito menos complicado que valsar! Mas eu ensaiei tanto, olhando no espelho do quarto, preparando as palavras que diria assim que seu sorriso adentrasse a festa. Elegantemente levaria minhas mãos até as suas, puxaria conversa e logo grudaríamos nossos corpos e corações.

Mas eu não consigo levantar daqui!

Mas na facilidade dos passos elevei-me até a direção contraria da minha timidez e soletrei passos encardidos entre as pessoas que platonicamente se amavam por aquela noite. Devidos amores temporais, apaixonados, agudos e sentimentais. De suspirar caminhando, de mastigar pensando, de torcer pra acontecer de novo, de deixar marca no pescoço, trocar telefone no guardanapo da lanchonete. Elogios, risadinhas sensíveis e troca de olhares.

E eu?

Continuei caminhando, procurando abrir espaço sem estragar nenhuma obra de arte do amor. O tempo estava passando rápido demais e logo, em definitivo, os pares se completariam e a marcha fúnebre iniciaria, descartando-me das fotos do anuário, pois insegurança tamanha do coração impediu fazer história nessa noite, como em todas as vezes que o silencio fez-se orquestrado e contemplou por horas malignas historias passadas, intercalado entre lágrimas reprimidas, secas e expostas aos fracos. Sentir e deixar passar é como perder e não ter inteligência, compreender pouco sobre a necessidade de agir e o terremoto destrói a cidade inteira.

Sem você sair do lugar!

Como quem rema contra maré, aos pingos de suor, desencadeei suficiente espaço e no famoso, outro lado da festa, busquei refresco em goles de ponche gelado. Contornando com os olhos todos meus colegas presentes, separado por virgulas e goles. Estranho ser invisível, ser pouco reparado, ser encantado e não ter poder. Mas dentre todos, somente meus pensamentos me acompanhavam. Esses mandam muito bem. Repetem piadas e permitem idiotices. Em par, consigo conectar assuntos menos tensos e vejo coração bater com mais calma.

Assim, com meu copo de ponche, refrescado, dei voltas em círculos para administrar demasiadamente minha clichê solidão. Aos blasés estocados, escondidos em seus detalhes arrogantes e do alto de seus pódios solitários comemoram algo que só eles compreendem, passo batido, sem equiparar defeitos, mas desses estranhos seres complexados, prefiro distancia. Melhor assim essa noite.

Sozinho não fico mais, depois que conquistei esses goles gelados!

E de que maneira encontraria essa noite a garota dos meus sonhos? Sem antes saber se ela gosta das mesmas bandas que eu? Sem saber se ela prefere o Revolver ou o Álbum Branco dos Beatles. Se já se apaixonou ouvindo Smiths e sentiu-se renegada como Kurt Cobain. Se é Clash ou Rolling Stones. Isso é muito difícil.

Ela nem deve saber de nada mesmo!

Equiparando Clarice e Zélia, falando que as cartas são importantes, mas que sentimentos são todos iguais. Os meus e os seus, sem reparar na quantidade de goles que dou e ao menos perceber que o tempo continuava a passar. Que desculpas esfarrapadas despistam somente os tolos e entrar para esse grupinho seleto, estava longe do meu objetivo para essa noite.

Como estudar para o vestibular e resolver voltar para casa depois de ter só desenhado algum símbolo escroto na folha principal do gabarito. Treinar por diversos dias e desistir da competição!

Dei o último gole no refresco, o mais longo da história dos goles! Somados a dois passos estabanados e esbarrei com tudo em alguém. Ridiculamente cai no chão enumerando planos infalíveis para sumir dali. Criaria asas, faria um túnel, explodiria bombas ninjas e sumiria na nevoa branca. Simularia dores no corpo inteiro, rolaria ou rastejaria feito minhoca até a saída.

Sensacional é estipular milhares de cenas e não projetar nenhuma, pois a realidade é imutável, não sempre, mas o lado direito nunca vai deixar de ser o lado direito, o erro nunca vai ser acerto e uma grande esbarrada, com certeza, não vai deixar der ser uma grande esbarrada. Como o Titanic afundando e a Rose se despedindo do Jack, ali seria o meu fim do mundo.

Incrível é a capacidade de imaginar e ilustrar tragédias, como o rosto que se prepara para o tapa. Fecha os olhos, entorta as bochechas e reprime todos os músculos do corpo e ao contrário disso tudo...

...sente uma mão te levantando.

Mão delicada, tão quanto sua dona, capaz de tirar do chão esse pequeno e estabanado pingüim fardado, com cara de idiota e sem jeito nenhum para olhar para frente,
mas ai o tempo parou.

Desenvolvi todos os textos, mas fiquei calado, por nada fecharia meus olhos ou desejaria estar do outro lado, estou aqui, bem aqui e não era para estar em nenhum outro lugar. Como os números que batem quando as roletas param e dizem que você tirou o grande prêmio.

Com uma voz linda, me perguntou se estava tudo bem!

Encantei-me! Agradeci pela bondade, pedi desculpas. Seus olhos brilharam e fizeram entender que estava tudo bem.

E no meu maior ato de coragem da vida...



...Sai andando e disse "até logo", pois nunca fui uma pessoa corajosa.


Triste fim de uma noite perdida.



Leo Fonseca, sobre minha grande timidez.

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