20 de jun. de 2010

#1968 - Primeiro, meu mês de junho

- É festa de rock seu imbecil! Tira essa camisa! Tira essa camisa! As meninas vão te achar um idiota se for vestido assim! Já não tem facilidade nenhuma, se dificultar com sua feiúra! Vai morrer virgem!

- Primeiro que não é uma festa! Imbecil! Segundo! Anota! Segundo! Sou mais velho aqui e você precisa aprender a me respeitar desde já! Pirralho!

No mês de junho costuma-se fazer bastante frio pelas manhãs. Aconselha-se que todos protejam seus lábios, pois podem rachar. Vista tocas que aqueçam suas idéias e escondam suas orelhas do tempo. Com o tempo acostuma-se com a temperatura local, mas não confunda sua mente. Está frio e no frio é melhor proteger-se. As pessoas ficam ruins, escondidas atrás dos seus muros de lã. Não sabe o que pensa a pessoa que senta em sua frente. Estar sempre preparado para um tiro não é a melhor forma de se viver, mas como ensina os escoteiros, é necessário estar sempre alerta.

Em tempos de crise tudo é problema e qualquer conseqüência só piora a situação. Um olhar torto para um policial pode gerar um tapa na cara. Uma palavra mal dita, um maldito que dispara sem perguntar o nome de sua vitima. Sai correndo e esconde seu rosto no frio.

Escondam-se jovens!

Eric acabara de completar dezoito anos e tentara ainda entender a diferença do mundo antes da maior idade com sua infância que se fazia presente de todas as formas. Tudo era muito doce ainda, até mesmo sua violência, sua rebeldia ainda cheirava a leite. Inocente! Brigava por obrigação, assim o foi ensinado desde sempre. Cresceu com raiva, mas ainda não sentiu na pele a verdadeira razão. Aprendeu em casa com seu irmão mais velho. Pedro era alto e falava bem em público. Sempre tirava boas notas na faculdade. Líder nato! Sua segurança o levava a ter admiradores. Era firme e decisivo. Não tinha medo.

Pedro viu seu pai sumir quando estava entrando no curso superior. Seu pai era professor e a sua Sociologia o fez sumir. Sumiu! Sua mãe mentiu por anos, dizendo que fora viajar e que logo voltaria, mas o logo nunca existiu. Pedro quando descobriu a sobriedade dos fatos, ficou com raiva. Vestiu o verde amarelo antes da Copa de Setenta e decidiu que não ficaria assim!

Juntou amigos e armou-se...

- Ei! Pedro não parece um idiota com aquela camisa?!

- Eric! Em silêncio! Por favor!

Eric obedeceu! Ele sempre obedece na hora certa!

- Amigos! Mais três essa semana e não foi sem querer mais uma vez. Estão falando que tiraram férias, mas ainda não é verão para ir para praia. Ainda morro de medo do que está por vir. Morro de medo por falar, por existir! Amanhã, por achar, pode ser eu que venha a sumir e não trarei palavras para acalmar ou acabar com essa situação. De uma vez por todas! De todas às vezes! No país que vivo e amo! No país verde a amarelo o vermelho está prevalecendo!

Pedro é nome de santo. Apostolo! Mas acho que não era romano, mas os católicos gostam da ligação com a Itália que faz essa religião. E de lá que veio a moda Fascista naquela época que um homem de bigode, ridículo, erguia suas bandeiras vermelhas com uma suástica tosca no centro. E como no Brasil tudo acontece depois, a moda só veio por agora e está se intensificando nesse ano de mil novecentos e sessenta e oito.

Adolescentes e pré-adultos sumiam por ter opiniões demais. Professores sumiam por ensinar demais. Políticos tiraram férias e artistas precisaram calar suas canções por um tempo. Sem praia e maré boa para o surfe. Pedro não era santo e muito menos Jesus.

- Sou irmão daquele ali que está falando! Meu nome é Eric, e o seu?

- Margot, mas não estou afim de papo, preste atenção nele!

Eric era a influência da Coca- Cola e do ritmo vindo recentemente dos EUA. Rock N’ Roll, chicletes e vestidos de bolinha. Tinha energia saindo pelas ventas por todo o tempo. Não desligava. Pouco prestava atenção no que diziam, mas era sempre fiel ao seu irmão. Como os irmãos mais novos fazem com os mais velhos, porém seu respeito ia além. Pedro era seu pai. Pedro era seu objetivo. Pedro era seu maior ídolo! Viu seu pai partir e só seu irmão que conseguira cessar suas lágrimas.

Entendia de Fidel, já lera Marx todas as vezes que foi necessário. Adam Smith! Che e sua jornada. Raul e os desbravadores. Cuba! China! Mao Tse! A cor vermelha e punhos armados. Gritarão revolução quando a hora realmente chegar! Entendia do problema que era estar vivo e pensar! Existir é um problema para aqueles que pensam demais.

- Dizem as más línguas que assinarão o tal decreto quando o verão estiver esquentando as nossas terras tupiniquins! Nesse verão de sessenta e oito, todos os seus crimes passarão em branco. Como se não tivessem manchado de vermelho a histórias de pessoas como EU, Minha mãe, Meu irmão! Meu pai que não manda mais recados! Onde ele foi parar? Por que não aparece mais para me dar um abraço? Onde foram parar os nossos pais, meus amigos? No verão estarão todos pulando em suas piscinas e comemorando a ditadura! Comemorarão o nosso silêncio! Nossas bocas fechadas por suas balas! Pela tortura! Pela mastigação de nossas mentes! Ficaremos calados?!

- Não!

O grito foi único! Derradeiro! Unido! Sincronizado!

...

- Margot? Você é do meu colégio, não é?! Está no último ano?!

- Sim Eric! Sou do seu colégio e estou no mesmo ano que você, mas me desculpe! Não vim até aqui para fazer amizades ou encontrar meus colegas de curso! Sem amizades! Sem amigos! Ok?!

...

- AMIGOS!

Iniciou Pedro, para nunca antes finalizar...

Amizade! Amigo! Fraternidade! Lealdade! Fidelidade! Humanidade! Só quando seu coração bate tranquilamente, pode perceber que realmente o amor existe. Realmente sentir o calor de um abraço e a energia que um corpo passa para o outro. Temos poucas certezas nessa vida, mas uma única é que somos seres humanos! Os que cobram!
Os que dançam. Os que trabalham em bancos, os que trabalham nas vendas. Açougue, estoque, biblioteca e resumindo os capítulos da novela. Somos todos da mesma raça e quando habitamos a mesma região, falamos o mesmo idioma! Não há distância entre Eu e Você. Somos parecidos. Somos idênticos! São os mesmos documentos exigidos e o Comprovante de Residência com bairros quase iguais. Os valores mudam, mas são muito parecidos!

Eles invadiram e não queriam fazer amigos...

“Amigos” foi a última palavra dita antes de começarem os gritos!

Alguns pularam a janela e esqueceram que estavam no primeiro andar. Machucaram suas pernas e não conseguiram correr. Outros foram para a escada de emergência, mas logo foram rendidos! Mãos na cabeça e corpos deitados no chão. Mas entre todas as moedas, uma valia mais e era essa que procuravam.

Eric agarrara Margot! Esconderam-se em um armário antigo de notícias. Jornais! O Brasil havia ganhado a Copa há dez anos! Didi brilhara! Mas ali ninguém os encontraria, estava escuro, em silêncio! Ninguém encontraria!

Covardia?! Medo?

...

Silêncio!

Um disparo!

Silêncio!

Segundo disparo!

Silêncio!

...

Amigos! Não foram amigos que entraram para reunião! Estavam vestidos com bandeiras brasileiras estampadas em seus peitos cariocas. Não foi a fim de samba! Não foi a fim de rock n’ roll! Não foi! Não fizeram barulho para subir! Não fizeram barulho para entrar! E entraram! Assustou quem tinha que assustar e viram de frente aquele que ficou! Ficou repleto de medo, mas não podia correr! Não deveria correr, pois então, ficou! Festejou a alegria de seus visitantes que logo partiram. Deixaram-no com duas marcas profundas e partiram.


- Pedro?!

- Bem que você disse que minha camisa não combinaria com essa festa de rock!

- Não!

- Ei menina! Cuida bem desse menino por mim?

- Não!


...

Silêncio!

Os homens maus fazem maldades! Homens de bem choram e agradecem! Um instante pode ser o último instante e depois desse, não tem mais como reclamar da vida!

Pois ela se vai...
...


Margot abraçou Eric e chorou!





... e assim começa uma revolução





Leonardo Fonseca

17 de jun. de 2010

#terradonunca - E não vai falar que não doeu

- Escorreguei e cai com a minha bunda em cima do meu braço direito. Minha bunda estava tão pesada que fez meu bracinho dobrar. Fez “crec”, mas nem foi tão complicado jogar vídeo-game. Meu braço estava ficando gordo e dolorido!

- Peter, seu braço estava quebrado?

- Estava, mas todos duvidaram na hora. Eu também duvidei! Não se quebra o pulso todos os dias! Não é?! E pela primeira vez a dor parece diferente. É igual novidade! Minha mãe me levou para engessar depois da aula. Parecia uma pata de elefante gordo!

- Desenharam no seu gesso?

- Tudo! Tudo mesmo!

- Você deve ficar muito feio com o braço branco! Muito feio mesmo! Deve ter ficado uma bolinha de tanto que comeu! Meu Deus! Uma bola branca engessada...

- Resolvi me aventurar engessado! Ai sim você pode me chamar de burro! Pode chamar quanto quiser! Fiz burrada! Aos quinhentos quilômetros por hora, velocidade perfeita, consegui estabilizar meu corpo. O vento estava a meu favor também, mas mesmo assim, tropecei e rolei três vezes o corpo. De longe vi uma moça de dentes estranhos rindo da minha cara. Tampava seu rosto para esconder seu sorriso amarelo. Ninguém veio me ajudar!

- Ai como me faz feliz Peter! Sua burrice é a minha fonte de vida. De certo, devo sempre me alimentar da sua desgraça. Não tem como não ser feliz ao seu lado Peter Pan. Sua burrice me alegra.

- Quando fui retirar o gesso, o médico disse para minha mãe que deveríamos abrir meu braço. Ele não estava bacana ainda! Não estava legal! Acho que foi o vídeo-game na hora errada! Iriam passar uma faca perto da minha mão direita e colocar um prego. Muito emocionante!

- Você pode pular essa parte nojenta?!

- Contei para todos os meus vizinhos! Estou indo para o hospital sem comer nada desde ontem! Estava morrendo de fome, mas não podia comer nada! Minha mãe me prometeu batata frita e refrigerante! Gelatinas para amenizar a saudade. Fui...


... Colocaram uma agulha com soro no meu braço esquerdo. Uma moça bonita colocou um treco em minha boca e pediu que eu sonhasse. Lá do céu o mundo parecia mais calmo. Não tinha ninguém brigando! Tentando fazer algo de errado! Prejudicando! Chorando! Decepcionando! Tudo mais calmo, sem maldade, sem pressa...

... Acordei sem voz! Totalmente sem voz!


- Peter Pan?! Estou ficando com vontade vomitar! Estou pálida?

- Quando percebi, já estava no quarto! Minha mãe bordava um beija-flor. Ponto-cruz! Asas verdes e peito azul. Perguntou se estava tudo bem! Dois amigos me ligaram e depois os garçons de branco me trouxeram comida sem gosto! Muito chato isso tudo! Não consegui dormir! Contei todas as gostas até a hora de entrar no carro para voltar.

- Que emocionante Peter Pan! Estou comovida! Juro! Mais do que tudo! Estou gritando por dentro! Mesmo com esse meu silêncio exterior!

- Assim que entramos no carro ganhei um saco enorme de batatas amarelas. Cebola e salsa. Refrigerante gelado! Se em todas as vezes que senhores de branco fossem abrir com facas o meu braço eu ganhasse minha mãe! Nem me preocuparia em se machucar!

...

Proteção! Sentir-se Protegido. Acalmado em um canto. Estável! Quente! Acomodado?! Perto de algumas pessoas o medo pode passar. Longe da visão assustada da madrugada, olhar com calma, por mais redundante, realmente acalma! Relaxa e segue dirigindo com calma. Chegaremos juntos ao final da festa e pretendo encontrar sua voz para colaborar a lembrança da história que vivemos.

Sentir falta faz parte do processo! Fizeram a caixa com coração! Não bate um relógio. Não bate de mentira. Ele bate e pensa também. Por mais estranho! Sente nervoso. Não consegue ficar calmo e fica preocupado.

A calma necessita aparecer no decorrer do processo. Para não se perder. Administrando a paciência. Sem fugir. Vamos seguir pela luz até o final da avenida. Dançando quem quiser. Refletindo o que puder. Veja o sol e mire como um bom objetivo.

Objetive! Capriche e faça sempre o melhor que puder fazer. Sempre!

...

- Sininho?!

- Você já vai reclamar do que?!

- Da falta que sinto quando você não está por perto! Com seu jeito! Com a sua voz...

- Por que mente Peter Pan?

- A seriedade me cansou tem um tempo, por isso vim pra cá! Vim para me despreocupar. Sem preocupação o sono vem com certeza!

- Mas...

Sorrisos são sempre bons pontos finais quando se procura algo que acalme.

....
sorria

Leonardo Fonseca

Pra você Dona Lirian onde estiver.
Sempre pra você, sempre por você.

14 de jun. de 2010

#terradonunca - Problemas com o síndico na Terra do Nunca

- Garotos sofrem com o vento frio do inverno. Menina fica quieta, dentro de casa, fofocando sobre a vida e não toma vento! Assim fica fácil adorar o inverno, fica fácil por demais! Entre as árvores é onde sinto mais frio. Descendo de uma vez o vento gela o seu rosto e não consigo nem sorrir depois!

- Fresco! Meu Senhor! Quer uma máscara emprestada? Bom que você esconde a sua cara feia também! Uma alegria de bônus para você e um presente para humanidade! No mínimo três meses do ano não veríamos a sua cara feia! Você me assusta!

Peter sem educação alguma socou um capuz em seu rosto, emburrado, se preparou para partir. Fazia frio de soltar fumaça pela boca e enquanto dizia sobre o frio, o frio se “auto-desenhava” pelo espaço. Revoltado, achou melhor se esquentar. Achou melhor cobrir os dedos dos pés com um cobertor e as mãos em uma lareira. Na Terra do Nunca as lareiras foram proibidas depois do acidente com a fogueira. Garotos Perdidos descuidados, não tomaram tento, e de repente, tudo virou luz e muito calor. Então preferem evitar! Onde há muita criança reunida, melhor não brincar com fogo. Só teria calor suficiente se fosse para onde o tempo passa. Onde estão todos de gravata procurando uma nova conta para pagar. Lá fora com pessoas gritando sobre assuntos que não conhecem e procurando um motivo diferente para comentar na conversa de bar.

Por uns meses a realidade não dói. Passa batido, em pouco tempo já se foi. Perdido, logo ali. Indo! Partindo! Então, pelo inverno, o garoto chegou a essa conclusão.

- Vou encontrar Wendy! Lá encontro um pouco de lã e faço um casaco. Me esquento! Passeio pela normalidade, não ligo! Uso sapato e podemos ir ao cinema! Volto depois do inverno!

- Como assim? Você sabe que não posso ir com você e nem faço questão de ver de perto aquela espécie de pessoa. Não faço questão alguma! Nem pense em sair daqui sem a minha pessoa, me deixar, sentirei frio! Vai fazer frio Peter!

- Mas não foi você que acabou de dizer que gosta tanto assim?

Nem pensou, nem olhou para trás. Foi! Colocou um pano sobre a boca para o vento não cortar. Foi! A viagem seria longa. O metrô chega só até metade do caminho. Desce na última estação! Pegue um ônibus na última plataforma. Segue direto pelo corredor. Oitava porta a esquerda. Sobe! O terceiro ônibus. Azul. Mais quarenta e cinco minutos do tempo normal da vida. E pronto!

Peter adentrou e já deixou de voar. Viu duas garotas lindas passando e se lembrou que beleza é onipresente nos dois mundos e que motivos sempre existiriam. Logo foi procurar abrigo. Wendy. Amiga de tempos. Do tempo que correu. O que você sabe sobre o tempo da vida que vai passando? Realmente entende alguma coisa? Não! Não entende nada! Se entendesse, pararia o tempo, mas aqui, no Mundo Real! O tempo passa! As “amostras grátis” do tempo são a minha grande preocupação para essa próxima geração de seres humanos. Preocupados, ansiosos, calados, depressivos.

Logo encontraram-se...

- Por que demorou tanto tempo assim Peter Pan?
- Mas nem vi o tempo passar!

- Você ainda não aprendeu a se preocupar? Continua pairando pelas árvores? Você! Não! Viu! O! Tempo! Passar? Como? Isso me parece desculpa!

- Tudo bom Wendy? Vim em missão de paz! Vim por um pouco de calor, que naquela Terra não se faz. Não se pode fazer! Cria perigo! Perigo é desespero e aqui posso me esquentar.

- Tudo bem Sr. Peter Pan! Veio se comportar por uns dias?

Cada um de nós pertencemos a uma rotina diferente que faz com que sejamos uns diferentes dos outros. Pensamos diferente, fazemos coisas diferentes. Temos especializações de acordo com as habilidades pessoais. Essas quando bem desenvolvidas definem nossa diferença!

Sou do Campo! Sou da Cidade! Sou de um lugar diferente daqui...

A rotina também pode te levar para caminhos interessantes, mas quando o mínimo já é o necessário para a vida do cidadão. O Tempo não perdoa situações assim. Já aparecem várias promotoras de venda distribuindo brindes!

Ama, por que sente falta!

Trabalha, por que sente falta!

Se diverte, por que sente falta!

E não é bem assim...

- Podemos comer marshmallows na fogueira? Passar frio juntos e contar Histórias de Terror? “Um menino corre até o final do corredor e já esbarra em um brutamontes. Dois metros de pura maldade. Sangue nos olhos e...”

- Estou à procura de um apartamento novo Peter, não podemos nos esquentar na fogueira! Mas meu carro tem ar quente! Rapidinho o corpo fica quente, nem vai perceber o frio da rua. Hoje em dia tem calor em todo lugar que você entra. Não precisamos mais desse sol! Ai Sol! Como odeio sol!

Sua amiga cresceu! Realmente demorou muito tempo cara! Me desculpa, mas ela cresceu! Aqui no meu bairro, crescer pode ser isso ai também!

As pessoas têm o mesmo tamanho, o rosto continua igual! A roupa muda um pouco! Mas ainda é ela!

- Preciso de um lugar novo para morar, não agüento mais as mesmas pessoas, o mesmo tudo. Minha vizinha ouve a mesma música tem mais de dez anos. E tem todos os amores que passaram por aqui. Preciso renovar! Preciso me mudar. Um lugar novo. Uma vista nova. Pessoas novas! Adoro fazer amizades! Não quero mais esses amigos daqui!

- Vocês realmente não fazem fogueira por aqui Wendy? Alou, Wendy?! Você está me ouvindo direito?! A ligação está horrível! Tem alguém aí? Wendy? Vocês realmente não fazem fogueira por aqui? Sem marshmallows? Que tragédia!

Sem fogueira! Entrou no carro e partiu até a zona oeste da cidade e foi ver apartamento junto com sua adorável amiga. Não é errado ser o que foi feito para ser. Ele ficou e tentou se divertir.

Ela buscava por um prédio que fosse alto, para ver a vida mais próxima do céu! Para ter tudo e não ter nada ao mesmo tempo. Tenho até onde os meus olhos podem chegar, mas não posso tocar! Meus braços continuam curtos, independente da minha vontade infinita.

Então faz de conta que é o Paraíso...

- Olha Peter! Aqui vou colocar uma banheira! Depois do trabalho! Nada melhor!

- Você vai poder nadar?

- Nadar?! Não tenho mais idade para isso! Vou estacionar meu corpo. Passo por uma sessão de massagem antes! Perfeito! Vai ser aqui mesmo!

- Onde vai dançar? Onde vai ser a pista de dança aqui dentro?

- Pista? Não circularão pessoas aqui! Alguns únicos, meus únicos! Sexuais! Mas são únicos! Homens são necessários por vezes, mas esse castelo é só meu Peter! Só meu! Meu Reino!

- Sem dançar? Sem nadar?

A menina balançou sua cabeça. Expressava com ironia um sorriso amarelo e deu uma risada perto do ponto final. Respirou fundo e continuo a andar pelo apartamento ainda sem móveis! Com seus olhos decorava cada centímetro!

De um lado as cores claras, do outro as mais escuras. Separadas por fases e dias da semana. Um para cada situação promovida pela sequência...

Segunda – Tudo começa! Dieta! Exercícios!

Terça – Ponte e aceitação da segunda! Banho de banheira e corrida para relaxar.

Lá pela sexta vou combinar um jantar! Vou ter uma visita! Alguém vem me alegrar. Depois se vai e continuo...

- Por que você não fica?! Vem passar um tempo aqui! Está um garoto bonito! Já é hora de começar essa vida. De se engajar. De alavancar. Acumular. Ter! Pode morar comigo! Comprarei uma cama grande, branca, gigante! Aprendi a cozinhar Peter! O que acha?

- Tem um despertador tocando! Acho que Tic Tac está a solta novamente na Terra do Nunca! Logo todos vão acordar e sentirão minha falta! Demorei e demorar é um pecado! Não vacilo nunca mais! Nem está tão frio! Os Garotos Perdidos precisam de mim!

- Continua um imaturo brincalhão...

Antes de terminar, ele não a deixou concluir o pensamento! Frases decoradas são sempre frases decoradas. A raiva é um sentimento pré disposto. Sempre será representada da mesma forma. Alguns cantam mais agudo. Outros são mais graves. E para leveza de nossas almas não preciso falar de coisas ruins. Não mais coisas ruins.

Viu de tudo e não viu nada. Aqui não tem nada! É tudo de mentira!

Trabalha, fica cansado, dorme. Precisa de uma cama melhor! Compra! Televisão de alta definição e mais de mil e oitenta linhas divididas entre a falta de assunto e um comercial de cerveja.

O barato é não pensar!

Não se foge sempre, mas a leveza está na capacidade de encontrar a leveza. E só!

Peter Pan adentrou rapidamente a Terra do Nunca. A volta é sempre mais rápida do que a ida. Sem anseios, foi comunicar sua chegada. Mal sabia ele do fervor que ardia no corpo de sua amiga fada. Sua roupa que era verde, ficou vermelha! Passou tanta raiva! Também por menos, o menino foi e a deixou. É certo pensar no bem próprio por vezes, mas sempre olhe para o lado! Sempre!

- Ei Nanica!

- Some Peter Pan! Some!

Peter inclinou seu pescoço para esquerda. Preparou a jogada vinda de trás do meio de campo. Partiu pela lateral direita, montou um sorriso e o fez!

- Já te falei que você é ser mais chato do mundo?! A Rainha de todas as chatas?!

- Cala a boca!

Eu juro! Presenciei de perto essa última frase! Foi o “cala boca” mais bonito que já se viu! Sem ironia! Foi lindo! Com direito a sorriso e dois tapas.

Sem violência!

. e todo os sorrisos do mundo




Leo Fonseca

11 de jun. de 2010

#terradonunca - Sobre os sapatos jogados na Terra do Nunca

- Eu avisei que iria a essa festa! Vai todo mundo cara, não posso deixar de ir. Encontro Anual de Pessoas Bonitas e Descoladas da Terra do Nunca. Faz tempo que não saio para dançar a noite inteira. Correndo até o banheiro, me apaixonando no corredor. Faz tempo que não faço nada que até cansei de fazer nada, preciso fazer alguma coisa.

- Só queria que você não fosse. Estou com medo de ficar aqui sozinha. Ouvi tantos barulhos vindos dali. Acho que o Capitão Gancho voltou Peter. Fico quietinha, não causo nenhum problema. Fica aqui comigo?

Peter estava arrumado. Calça nova, camiseta passada, perfume e barba feita. Estava perfeito. Ele queria ver a noite virar dia e conhecer alguém que ainda não conhecia. Às vezes nem pergunta o nome e a paixão segue por uma nova boca. A juventude pede música alta, não tem como pedir para ficar quieto. Sentado ele vai se estressar!

- Não posso ficar! Não posso! Não posso e não quero ficar aqui dentro! Sem ver nada? Fazendo o que? Qual o problema? Desembucha nanica, abre essa boca e explica o que não entendi direito. Desenha?

- Pode ir! Vai! Tchau!

Seus olhos mudaram de cor. Do verde ao azul. Acompanhado da beleza de um sorriso gigante que aparecera para contemplar o momento. Peter, ignorou qualquer sentimento, pensou com sua vontade. Virou as costas e caminhou até a porta. No terceiro passo, percebeu que alguém ali não estava contente. O ar sempre muda quando as pessoas passam por sentimentos arbitrários. Confuso. Parou ali. Piscou duas vezes, desfez o rosto e disse:

- O que foi garota? Por que te incomoda tanto? Volto com vida! Prometo!

- Eu queria que você me fizesse companhia hoje. Preciso de um amigo. Alguém para conversar. Até posso ficar acordada com você até o dia clarear! O que você acha Peter?

Sem respirar...

- Conversamos amanhã! Quero aproveitar que ainda é cedo e passar na casa do Pedro. Vamos encontrar algumas amigas e de lá partiremos. Até!

Sabe quando você gosta muito de uma pessoa? Gostar é normal. Cada um com um número diferente. Alguns têm mais, alguns menos, mas sempre o suficiente. Todo mundo gosta ou já gostou. Teve um caso, se apaixonou pela menina da carteira da frente. Sentou do lado de uma menina no ônibus e conversou até o centro. Quando levantou deu de encontro com o mais belo conjunto de beleza. E é assim! Todos gostam! E quando menos percebem, sentem e o sentir sempre é uma novidade estranha em um primeiro ver. Pensa-se, calcula-se e às vezes, muitas vezes não admite.

Somos fundamentais uns para os outros e contar isso no meio da conversa parece indigesto. Eu gosto de você! Talvez seja isso que ele precisa para ficar e perceber o que ele nunca percebeu. Sempre se fez de dura essa menina e deixou de lado por vezes. Mas agora ele está saindo e provavelmente voltará apaixonado pela vida. Vai contar novidade durante uma semana inteira. De segunda até sexta o assunto será o mesmo. E ela e seu pobre coração dançarão apertados. Bombeando a tristeza por todo corpo. Levando vontade de dormir até mais tarde por todos os dias. Até que tudo melhore. Mas é muito estranho quando começa a doer algo que normalmente está só ali, bombeando!

- Gosto! Eu gosto. Fica? Te animo, canto! Encanto? Fica? Pode ficar?

Correu até o menino e grudou em seu braço. Até eu ficaria se um sorriso daqueles brilhasse tão perto dos meus olhos. Deu para perceber que ela puxou três vezes o ar. Com força. Respirou com muita força. Encheu o peito e foi.

- Tenho medo de te perder na noite! Tenho medo de te ver na rua. Tenho medo! Tenho medo de uma boca que possa te beijar. Tenho medo que possa se apaixonar. Conhece menina nova e esquece-se da menina velha. Estou acabada né?!

- Está com ciúmes? Sente uma mastigada na região do coração?

Sininho mordeu sua boca. Perdida ali.

- Não seja irônico comigo! Não seja! Não pode!

- Sou sempre o primeiro a ser descartado, deixado de lado. Sempre sou o primeiro a ser esquecido. Nunca me chamou primeiro quando está escolhendo time! Nunca! E agora tem ciúmes? Não se cansou de ter tudo de uma vez? Não pode ser assim! Você que não pode! Não pode!

Nesse momento o corredor ficou vinte vezes maior! Peter procurava no chão a sua vontade de sair de casa. Olhando para baixo, rosto inclinado. Chateou-se! É quando você solta aleatoriamente um pensamento que guardou por um bom tempo, mas que nunca deveria sair de sua boca. E quando ele resolve sair. Nervoso, afoito! Ofegante! Ele machuca mais quem a dita do que quem só capta a informação.

Nunca na vida haverá perfeição entre os seres, pois não há um meio de encontrar a perfeição dentro de nossas limitações. Somos diferentes. Gostamos de coisas diferentes e sempre teremos oposição dentro dessa democracia. Relacionamentos, casamentos, namoros, parcelas do fogão. Briga-se por isso!

- Quer conversar?

- Não Sininho!

- Mas eu posso falar? Posso dizer?

Nesse momento ouviu-se um barulho vindo do sul da ilha do norte, onde habitam dezoito Garotos Perdidos, entre eles dez garotos e oito garotas. Todos se dão muito bem por ali. Gostam de boa comida, cultivam flores maravilhosas naquela região. Apreciam positivamente a loucura dessa Terra. Mas esse som assustou os dois e fez com que parassem de falar para só ouvir o que poderia ser.

Os dois saíram de casa para procurar algo. Ao primeiro ver não aconteceu nada de extraordinário com o nosso mundo. Mas viu-se vindo em uma velocidade uma Garota Perdida, que vinha na direção do contraditório casal.

- Tic Tac acordou e está jogando água para todos os lados. Destruiu vários botes e tem Meninos precisando de ajuda! Peter! Peter! Tic Tac acordou! Precisamos de você!

- Você vem comigo Nanica?

Sininho piscou seus olhos vinte vezes. Contei! Tive que contar.

Ela foi voando atrás de Peter até o local do delito. Botes multiplicaram diversos pedaços de madeira. Todos boiando. Meninos tentavam fugir do crocodilo que partia na direção deles com muita violência. Acho que seus problemas eram imensos. Ele sentia muita raiva em cada mordida que, por Deus, não havia pegado ninguém.

A fadinha puxou a fila para avisar a chegada do seu grande Peter Pan!

- Lagartixazinha! Ridícula! Tic! Tac! Tic! Tac! Que barulho é esse?! Comeu um relógio ou está precisando ir ao banheiro urgentemente?

- Cala a boca Sininho! Vá ajudar os garotos ali!

Minha mãe dizia para sempre prestar atenção em cada coisa que fosse fazer. Isso evita tropeçar no próprio pé. Deixar cair coisas no meio da cozinha enquanto prepara o almoço. Aprende desde cedo a não ser descuidado. Descuidos possuem preços muito caros e quase sempre são aqueles que não podem ser parcelados no cartão de crédito. É á vista e só! Não tem segunda opção! Bobiou, dançou!

Tic Tac assistiu muito bem a cena e resolveu esperar. Contou e no momento certo pulou em direção da fada. Não pegou inteira! Ainda bem! Mas o impacto a jogou para longe. Assustada não conseguiu voar. Suas asas não batiam direito quando sua pulsação fugia a regra. Caiu machucada! Sua luz diminuiu e Peter voou até perto. Enquanto Tic Tac sumia pelo rio.

- Sininho? Ei! Pode me escutar? Por favor! Sininho? Responda!

A resposta não vinha...

- Ei! Sininho?! Não vai! Não vai! Não é pra você ir!

Na mesma quantidade que crescia o desespero, Sininho deixava de brilhar. Sua luz diminui a cada lágrima do menino que não sabia o que fazer. Ela não respondia. Ele falava sozinho! A chacoalhou, mas não adiantou! Estava desligando tudo.

- Ei, fica comigo para sempre? Promete que vai ficar comigo para sempre?! Conta comigo para tudo que for preciso. Se fiz tudo que pediu, fiz por que quis e muitas vezes é te fazendo feliz que me sinto bem. Sabia? É só ter pensamentos leves...

Diz à lenda que a cada primeiro choro de um bebê, uma fada nasce! Mas quando esse bebê cresce, descobre a vida que vai além da brincadeira e sempre parece uma chatisse! Nem todos poderão brincar e acabam esquecendo-se da fada. Essa então cai morta no chão. Espatifada. Esquecida pela infância que acaba sem perdão!

Mas seria um bom conto se acabasse de uma forma triste? Sentindo a falta que alguém pode fazer? Seria interessante terminar triste? Por que me sinto tão triste por aqui? Ela veio de onde? Veio por que? Para que veio?

Não seria legal!

Ou seria?! Seria?! Seria o que? Ah! É só ter pensamentos leves! É só tirar o peso da cabeça e fazer com que ela tenha diversos pensamentos tranqüilos. Penas, algodão. Pétalas de rosas no chão lembram paixão. Paixão deixa o pensamento leve também!

Acredite muito no que você quer. Acredite em fadas. Acredite no seu foco. Acredite no seu objetivo. Acredite na capacidade. Acredite em fadas mais uma vez. Duas vezes mais do que já calculou até aqui, mais uma porcentagem aleatória. Goste mais do que antes! Se entender assim já é o suficiente.

E bata palmas!

Se você acredita em fadas! Bata Palmas!

- Eu acredito em fadas!

Peter Pan explodiu em aplausos. Girava pelo ar. Subia, descia, passava perto da água. Batia palmas, cantava, adorava! Ele acreditava realmente em fadas!

- Eu acredito em fadas!

A luz aumentou! Parecia que tinham acendido uma lâmpada. Brilhava. Brilhava. Foi jogando brilho por tudo ali ao redor. Pulmão já funcionava normalmente!


- Você é o otário que eu mais gosto nesse mundo!

- Mesmo? Sem parar?

- Até onde puder vou te amar Bestão!





E o malvado Tic Tac voltou só na segunda-feira, na hora de voltar ao trabalho.



Leo Fonseca

10 de jun. de 2010

#terradonunca - Como funciona a Terra do Nunca em horário de trabalho

- Vem passar o final de semana aqui? Comigo? Vai fazer frio de sexta até segunda a tarde. Comprei caixas de leite, cereais, chocolates, aluguei filmes. Terror, comédia romântica, massas congeladas e refrigerante. Quatro edredons e um violão. Acendemos uma vela e depois vamos dormir.

- ao amanhecer podemos caminhar pela praia? Quero observar o rosto de todos os velhinhos que lêem notícias. Não cansados da história, acumulam mais um assunto para o café. Com pouco açúcar por favor Peter! Podemos cantar muitas músicas?

- Todas do mundo para você.

Ouviu-se como pétalas voando por campo extenso. Verde, infinito, absoluto.
Calmaria sem fim, que tranqüilidade gostosa. O bebê sorriu pela primeira vez, percebeu o que é a vida e já começou dando risada. Gargalhou e caminhou durante o tempo. Nunca parou de crescer. Mas foi devagar, para não cansar.

A calmaria voava em conjunto de todas as nuvens de algodão. Estrelas brilhando e momentos solitários ficavam para trás. Sua compania faz tão bem. As estrelas estavam ali.

- Olha! Posso comer estrelas Peter Pan! Gosto de falar seu nome inteiro, gosto também de nomes compostos, como aqueles dos meninos da revista. Todos com nome composto! Será que essas estrelas vão brilhar no meu estomago?

- Você está realmente comendo estrelas? Cara! Me disseram que a digestão é tão lenta que vai ficar sem mastigar novidade por três dias. Sua barriga vai explodir de tanta caloria que tem uma estrela. Se for dessas mais brilhantes, novinhas, meu Deus... Cuidado! Sua barriguinha está começando a aparecer.

A menina, sem pensar, direcionou seu olhar para a região de sua barriga e olhou. Apertou. Apalpou. Apertou mais uma vez. Mais duas vezes. Mais oito vezes sem parar. Levantou sua blusa e colocou para fora. Olhou. Apertou. E olhou para o mal educado. Piscou duas vezes os olhos, balançando a cabeça, duvidando, apertando e coçou sua cabeça.

- Eu não estou ficando gorda Peter Pan! Eu! Não! Estou! Ficando! Gorda! Peter! Pan!

Peter de tão preocupado, balançou seus dois ombros ao mesmo tempo. Ergueu até encostar em sua orelha, coçou a nuca bem devagar. Espreguiçou meia dúzia de palavras. Lentas, irônicas, sarcásticas. Ele nem deu sorriso nenhum, mas dava para ver seus olhos que ele ria demais. Sem parar. Engasgou com leite e quase ficou sem ar. Mas parou ali.

- Não falei que você está gorda! Não falei! Só evite comer estrelas e acho interessante fazer exercícios. Poderia seguir o exemplo, não?! Te acho linda assim! Quanto tempo ainda tenho? Meus bônus logo vão acabar!

- Bônus? Por que você sempre muda de assunto? Eu olho na sua cara e nunca te reconheço. Não sei se fala sério, se é piada, se é verdade, se é mentira ou só fala por falar! Não sei! Nem sei se devo saber, nem sei de nada e só de pensar, descubro que é melhor não saber, mesmo! Você está perdido e eu tentando me encontrar perto de você. Não sabe de nada! Mesmo!

Meninas gostam de abraços. Meninas gostam de meninos. Gostam de tardes apaixonadas. Gostam de momentos que ficam para sempre. Recordações. Meninas gostam de muita coisa. Gostam de atenção. Atendimento vinte quatro horas. Servidão. Rainha. Santa Realeza.

Meninos estão soltos pelo mundo. Sem coleira. Sem rumo. Sem destino. Roupa amassada. Cabelo bagunçado. Admirando meninas. Paixão sem fim. Do vagão do metrô. Quando entra menina bonita no ônibus. Vem andando. Vem! Senta do lado. Meninos não sabem de muita coisa mesmo, mas sabem do que precisa. Não precisa de muita coisa.

- Você só sabe brigar? Admito que fica linda quando está com raiva. Se todas as pessoas do mundo ficassem bonitas desse jeito quando estão soltando fogo pelo ar, não teríamos guerra, assalto, briga de bairro, briga de torcida. O mundo serial igual ao Brasil em véspera de Copa do Mundo por todos os anos de existência que restassem aos seres humanos. Se acabasse o mundo agora, não acharia ruim! Mas se ainda assim quiser passar o final de semana comigo, espero segunda para proclamar o Apocalipse! Que tal?

- Não! N!Ã!O!

E não disse mais nada além. Nenhuma vogal a mais, consoante, derivados. Sussurros. Chiados. Barulhos. Ruídos. Nada! Dava para ouvir a música que as formigas trabalhadoras levavam em seus aparelhos de MP3. Lady Gaga não faz Carnaval para formiga trabalhadora. Preferem Samba. São divertidas e boas amigas. Mas nunca ali havia um silêncio tão intenso. Tão quieto que o quieto parecia barulho.

- Tudo bem! Sobra mais chocolate para mim!

O rebatedor preparou o bastão. Girou seu braço esquerdo para frente. Bateu na sola do pé direito e estalou o pescoço. Esticou as costas e rebateu para longe! Jogou para fora do estádio e deu, em estilo, a vitória para seu time! Correu para torcida! Em silêncio.

Ela foi chata até ali! Insuportável! Cansativa e sempre dona da verdade! Meninas não gostam de perder para garotos. São imaturos demais para declarar derrota. Não sabem de nada essas meninas. Não sabem de nada esses meninos apaixonados. Perdidos, nunca concordam, nunca aceitam e se assustam, quando deveriam estar abraçados.

- Você vai comer sozinho? Inho? Mesmo?

- Ah! Se sobrar. Se lembrar. Guardo para você e trago depois do fim do mundo. Depois da Copa. Depois. Deixo guardado. Tudo bem?

- Só depois?

- Só depois Sininho!

Normalmente pessoas perdidas escondem suas colas de prova no chão ou em muros espalhados pela cidade. Sempre procuram as palavras que lhes faltam em algum lugar que desconheço. Miram seus olhares e procuram na tristeza de uma curva mal feita pelo motorista. Sininho olhou para tudo que estava ao seu redor, mas parecia que até mesmo o chão havia saído para almoçar. Corpo leve, mente flutuante. Suspirou. Desejou um brigadeiro. Suspirou. Pensou e cantou...

- Vou com você Peter Pan! Posso?

- Agora e sempre, hoje e amanhã. Quando quiser e se quiser. Para sempre!



Até que a próxima voz levante primeiro




Leo Fonseca