Dias sem perceber a presença foram passando aos montes. Quando caem as folhas do calendário desordenadamente, percebendo bem pouco a evolução dos fatos, com a cara igual que passa de um turno para o outro. Heróis ilustrados em passatempos digitais. Percebeu o grau da ausência no decorrer do espaço. Literal, perceber-se que o vazio da falta de gravidade faz mal ao coração. Faz com que as notas saiam do verdadeiro motivo e as dúvidas pairem pelo ar. Colocando as necessidades em colunas na vertical. Conheceu um pouco a si nesse tempo todo. Fatores bons sempre são sobressaltados na avaliação daquilo que já foi.
Quando não há novidade, dificilmente encontra-se concentração. Estava ali a sobrevoar reprises. Então resolveu pegar um mapa mais específico e decifrar a rota que percorria. Extrema burrice não ter feito isso horas atrás, mas como para frente sempre segue. Assim foi. As correntes sempre levam para o caminho de ruas parecidas, muito duvidosas quando a diferença da esquerda para direita está em sua frente. Quando é virar ou continuar reto. Há muitas contramãos espalhadas pela pista. É só virar errado e isso te leva para quatro quadras a mais no custo da gasolina. A rota ainda fazia muito sentido. Eis assim a brilhante idéia do nosso astronauta foi mergulhar em mais uma hora de cérebro desligado.
A nave possuía cabines onde o comandante podia relaxar enquanto a rota seguia em piloto automático. Havia oxigênio suficiente para adequar posição de dormir confortável para uma noite estável. Sem dores posteriores. Programou no painel ao lado. Oito horas seguidas. Era o suficiente para desencanar da solidão enquanto o caminho permanecia reto.
As horas foram seguindo uma atrás da outra, como de costume, sem motivos para gastar linhas. Seguindo em frente o mesmo parecia repetido de quadro para quadro. Fazia tanto silêncio que um pingo caído pareceria rebeldia de um mar inteiro. Corações quietos recebem as devidas freqüências em siglas complexas. Tão complexo quanto aquilo que estava por vir. Estranho decifrar dificuldades em palavras. Mas veio tudo a tremer. Balançar muito.
Logo soou o alarme com muita força. Mas sono pesado, consumido, não fazia com que seus olhos voltassem para acalmar a situação. Foi então que tudo veio a tremer mais. Chacoalhando como brinquedo de parque antigo. De praia. Daqueles de montanha-russa que tem história para contar. Girou e conheceu o mar antes dos quinze anos. Apaixonou-se e feriu meia dúzia de corações despreparados. Se a imensidão do universo não fosse escura, poderia descrever o que se observaria ali, mas sentido nunca fez parte desse catalogo de compras. Então tudo veio a balançar com muito mais força, o suficiente para deslocar a medula.
Silêncio.
Ao fim da freqüência a exatidão da calma voltou a fluir. Como as ondas mais calmas que massageiam as nossas costas. Fluindo como hidromassagem, mel e sabores rupestres. A normalidade tomou conta e por desvio do relógio ele acordou. Abriu os olhos com pressa de ver a vida e desativou tudo que lhe prendia a cabine da soneca. Remando partiu sem fôlego para cabine mestra. Onde as manivelas de uso da nave foram postas. Por mais uma brincadeira do destino, o cedo se tornou tarde e no segundo choque percebeu que faltava pouco para colisão ao solo. Sua residência espacial estava a segundos de espatifar seu resido sólido em contato do chão. Com toda força tentou controlar os movimentos para afagar a possibilidade de não existir mais. Deu certo, acalmou o motor, interrompendo a velocidade, mas sem diminuir a vontade de desintegrar com o choque ao solo. Machucou algumas árvores e chegou perto de uma baía. Região portuária de água mais escura. Sem machucar nenhum corpo presente, graças à sorte. E essa queda fez reflexo virar sono repentino e com toda força, nosso companheiro apagou. Segundos apenas, mas suficientes pela segunda vez em menos de dois instantes. Ao choque final, na última derrapada após a queda. Levando tudo que rodeava, a luz tornou a cair.
O silêncio predominou dois dias, quando os olhos voltaram a se abrir. Percebendo mais uma vez que permanecia vivo, como de costume. Sentindo cada parte de seu corpo, demorou alguns minutos para levantar e perceber mais coisas ao seu redor. Primeiro um movimento, outro que puxa, alongando e esticando até fazer sentido ao músculo. Cumprindo a tarefa física, levantou. Tremeu um pouco a base, mas demorou muito pouco para exercer total função. Estava tudo pela metade, a colisão trouxe o que não precisava, mas sem segunda chance. O que lhe restou então era sair dali e ver, observar, conhecer.
Era uma praia, ondas calmas. Canonizadas pelas pedras gigantes que formavam a região. Familiar, porém distante. Há de existir semelhança entre qualquer órgão que se alimenta de oxigênio. Os irmãos por lógica se parecerão muito. Praia calma e de pouco movimento, sem vozes declamando sílabas soltas. Foi demarcando pegadas na areia e percebendo os arredores. Ainda de capacete por não saber se algo tóxico predominava, para segurança de trabalho e cautela sob-humana. Pensava em respirar com calma para economizar, quando um menino de verde pintou girando sete nuvens ao céu. Exatos como números primos. Selecionados a dedo entre aspas que camuflam o sentido certo. E a presença assustou coração que já batia alucinado, deu trabalho para controlar a respiração e a fazer a calma permanecer estável.
Nem adiantou acalmar, que antes de finalizar o pensamento, deu dois passos para frente e demonstrou estranheza naquilo que acabara de perceber. Como era de se esperar, novidades sempre contagiam, cada qual com seu sentimento deslocado para ali. Com os olhos arregalados percebeu que o menino voador havia parado em sua frente. Com cara de esperto e sobrancelhas inclinadas, abriu sorriso de boca torta. Daria medo, mas a calma das suas cores desencanava e cicatrizava o corte. Tão pouco medo que entendeu quando o menino pediu para que tirasse o capacete, sem desdém obedeceu, como amigo que indica o melhor lado a percorrer. Com menos lombadas, para desfavorecer menos os carros com suspensão mais baixa. Seu nariz encontrara oxigênio e foi o motivo final para acalmar, suficiente para ouvir o menino de verde dizer.
- Que te faz aqui tripulante de nave estranha. Pregos espalhados por fora e por dentro. Geladeiras e portas sanfonadas, quanta estranheza nessa decoração e demarcação de espaço. Tão arrumadinha para cair por aqui, não acha?
- Petulante perguntar, interessante se preocupar. Mas era dali que vinha, sei menos que tu o que me trouxe até a colisão. Até o encontro com o chão e partícula que foi-se por ares adentro. Entendi tão pouco, então estranho encontrar uma resposta. Organizaram assim, mas queria mesmo te dizer.
Retorcendo o nariz, o menino de verde tentou decifrar a poesia dita, tornou a pensar para entender. Mas fazia pouco sentido, tão suficiente para acumular mais dúvida do que resposta.
- resumindo para não cansar. Está perdido aqui não é?
- Sim, mas acabo de fazer de suas palavras o maior motivo para sentir falta do meu coração. Que sozinho não faz sentido bater. Conclusão estranha. Fez muito sentido tudo isso. Perceberia melhor tudo aquilo que acontecia se parasse e desse total atenção. Média atenção realmente nos leva para o caminho as avessas. Está tudo errado e tem círculos demais espalhados por essas retas.
- Sua paciência assusta aquele que te ouve pela primeira vez, aborreceria individuo que te recebesse com flores, mas não cabe o julgamento para aniquilar as dúvidas da exatidão. Deixa com muito medo enquanto pronuncia, vem sem calma, vem dizendo, mas vem atropelando, ao contrário do que deveria ser a calma de estar representando o necessário.
- já disseram-me que deveria dizer com menos agressão verbal, mas mastigo muito rápido todas as idéias, eis que parece falta de educação, não há culpa. Mas mesmo assim, perdão! É pouco, mas não queria assustar, ao mesmo que não gostaria por nada de me encontrar perdido.
Na segunda retorcida e cortada com os olhos, o Astronauta acreditou que estava agradando muito pouco. Quente demais para calma que pedia o momento. Respirou de forma organizada, circulando como devia. Sabia pouco o que perguntar, por que havia muitas dúvidas acumuladas, quando assim surgem, impossibilitam estabilidade no rumo das palavras. E nem isso o fez calar.
- Aqui não é o meu Planeta Terra, de certo? Parece muito, mas está tão distante esse ar que circula que estranho demais a presença dessa energia. Conseguiria sentir com mais força, mas cada barreira que os pensamentos me criam a deixam longe do estágio que gostaria de alcançar. Se puder dar meia resposta, sentirei alivio.
- Presente momento não altera resultado. Coordenaria todas as respostas que quisesse, mas estranho estar a perguntar para um desconhecido. Sobre motivos ainda desentendo, sua presença parece um choque e ainda no desentendimento continuam a demonstrar que precisam de bula para cada procedência. Sim, faz médio sentido. Mas alteraria tão pouco, que é melhor deixar como surpresa. Motivaria mais. É aqui sim o seu Planeta Terra. Lindo como sempre observou. Com o sorriso mais largo do universo. Demarcado pela beleza de cada traço que te fez viajar até aqui. Desejando entender, mas entender para que? Quando se preocupa com o que foi e o que está por vir, gera frustração no sentimento de sentir o presente da vida. Essa é a medida certa, tão exata, que passa despercebida.
- Acostumei com Planeta Terra perto do meu colo, acolhendo cada sentimento de uma vez só. Não precisava ligação interurbana, sentia e o destino já era certo. Na postura desejada. Talvez seja falta ou saudade acumulada de forma louca. Coordenar não é o forte dessa missão, se não, haveriam passado o cargo para outro piloto e não eu. Queria teus olhos aqui, queria teus olhos aqui agora. Percebendo a saudade que sinto dos dias perto do solo tranqüilo, onde a mão segura a raiva e some muito rápido. Uma palavra garante muita coisa, mas quando somada com a vontade de falar. Alimenta mais de uma manhã e trilhões de sorrisos gritantes. Mas como voltar para lá?!
- Tudo ao seu tempo Astronauta.
Silêncio.
A chave da exatidão está na tentativa da boa vontade. Empurrando com calma cada detalhe que precisa permanecer ordenado. Esclarecer dúvidas é o caminho que mais se aproxima do conhecimento amplo. Dedicando-se a perceber a vírgulas da razão e compreendo sentimentos.
Silêncio.
Menino se desfez e areia desbotou toda de uma vez só. Contornando um assunto cortado pela metade. Desfez toda latitude presente, desfigurando canais de cores saturadas. Desativando o quadro de luz. Apagou tudo mais uma vez. De uma só vez.
Então seu pescoço estalou e a medula por eterna graça ao Senhor não havia saído para desandar. Permanecia tudo no lugar em seu corpo. Sua coluna permaneceria intacta e não passava de um susto esse chacoalhão, que ao seu fim, prejudicou muito pouco o sono do Astronauta, sobrando quatro horas de sono adentro. Foi só um sonho pesado. Desvendando aquilo que precisa ser dito, mas o silêncio da aeronave prejudica o relacionamento, mas por sua vez, foi bom se entender.
Seguiu assim.
... continua
Leonardo Fonseca
Nenhum comentário:
Postar um comentário